
Reacendeu-se uma nova polémica em torno dos incêndios. Mal a terra arrefeceu o suficiente para não derreter sapatos de verniz, o presidente do Governo Regional decide fazer o seu périplo de carro preto (desta vez sem ministros por perto) pelos miradouros das áreas ardidas. Alberto João Jardim não perdeu a oportunidade para lançar no ar uma nova fagulha incandescente, precisamente sobre os afoitos homens e mulheres, voluntários e profissionais que, na exaustão, procuravam o sossego do descanso merecido, após oito dias consecutivos a combater labaredas em várias frentes e ao lado das destemidas populações, livrando casas, pessoas, bichos e bens. Bombeiros que estiveram empenhados 48 horas por dia, que sacrificaram a pele pela pele dos outros, dias com cinza colada ao pescoço e sem por os pés no quartel, sem ver a mulher nem os filhos, acudindo aos sucessivos relatos de horror recebidos por telefone a cada três minutos e deitando para trás das costas a frustração de não receber há três meses, um salário de 600 euros. Jardim insinuou, num registo que lhe é muito característico, que a culpa pelos incêndios que devastaram a ilha é dos bombeiros, pelo simples facto de uma manifestação ter acontecido três dias antes de deflagrarem os primeiros fogos. O líder do governo da Madeira tinha dito que havia bombeiros a mais em determinadas corporações e, ontem, reafirmou a sua tese. Quando as cinzas assentam e o lume se extingue, sempre há alguém que enche o peito. Se Jardim estivesse no epicentro dos ‘infernos’ ao lado de centenas de pessoas no Palheiro Ferreiro, em Gaula, nos Moinhos ou na Ponta do Pargo, não teria tempo para afiar a língua. Se quisesse salvar a casa e a pele, teria de arregaçar mangas, de caminhar na terra quente a sentir o calor abrasar as pontas dos cabelos, porque não havia bombeiros por perto. Dizer que há bombeiros a mais e que incêndios destes só acontecem uma vez num século é uma declaração incendiária e uma ofensa a quem viveu momentos de pânico e tudo perdeu.
No rescaldo dos fogos, era de esperar da parte de quem governa, uma palavra de reconhecimento ao empenho daqueles que encararam isto com o espírito de missão, "vida por vida", que tudo fizeram para evitar uma catástrofe maior e o luto nos incêndios. Faltou também aquela palavra de conforto a quem já não tem tecto. Ainda a Madeira ardia e o governo concentrou-se em alimentar um clima de suspeições sobre "terroristas incendiários", pressionando os órgãos de polícia criminal a apresentar os seus autores, como se a investigação aparecesse com um estalar de dedos ou no final de um charuto. Nesta terra sonâmbula, enquanto se contam os hectares ardidos, as casas destruídas, as culturas chamuscadas, reduzem-se meios nos quartéis, nos hospitais, nas instituições de solidariedade e o presidente oferece um banquete aos foliões do Carnaval, na Quinta Vigia. Impõem-se cortes nos subsídios de turno dos bombeiros mas no parlamento, mantém-se igual. Aqui, não há deputados a mais, nem dispêndio de recursos. Logo o parlamento, que não apaga fogos, não os paga e até se incendia de vez em quando.
P.S.: "Terra Sonâmbula", de Mia Couto, faz-nos um retrato de um Moçambique chamuscado pela guerra civil, narrado por habitantes "patas rapadas". Uma obra que aprecio e que está cheia de pitadas de ignorância no estado puro, de iliteracia e de analfabetização de um povo cujo mundo terminava na tribo vizinha.