As cinzas ainda estão quentes, há casas destruídas, pessoas desalojadas, colheitas perdidas e muita incerteza quanto ao que os próximos dias irão trazer. Por isso, dizem alguns, ainda não é tempo de pedir contas, responsabilidades ou exigir medidas. Mas, se não é agora, quando será?

Lembro-me que em Outubro de 1993, quando a Madeira estava abalada pela destruição das cheias, diziam (os mesmos) que não era tempo de pedir responsabilidades e saber o que tinha corrido mal. Mais tarde, quando tudo acalmasse, seria o momento próprio para discutir. Até 20 de Fevereiro de 2010 esse tempo nunca chegou. Mas chegou a aluvião, com muito mais mortos. Passados quase 17 anos, ainda não era a altura certa de falar dos problemas. Mais tarde, quando tudo estivesse mais clamo. Até hoje.

Com os incêndios é a mesma coisa. No dia da tragédia é compreensível e até lógico que não se perca tempo a perguntar quem fez asneira, porque é preciso salvar vidas e bens. Mas agora, quando a cinza ainda está quente, é tempo de falar sobre estes assuntos. Se não for assim, o 'tempo certo' dos culpados nunca chegará.

E falar dos incêndios não se pode esgotar na conversa fácil do fogo posto, nos criminosos anónimos e nessa onda justiceira de taberna - há malucos que nas redes sociais defendem o linchamento de suspeitos! -, que só serve para camuflar as responsabilidades políticas.

É preciso investigar, saber em que casos se tratou de fogo criminoso e condenar quem se provar ser culpado. Mas não chega. Não se pode aceitar desculpas ridículas de que o mato não é limpo porque os donos dos terrenos não deixam, ou de que há bombeiros a mais. É preciso ir ao fundo da questão, falar de prevenção, meios, coordenação e o fim das 'capelinhas' das associações de bombeiros. Agora, que a cinza ainda está quente.