M.S. Gouveia Atento ao desenrolar dos acontecimentos dos incêndios que assolam a ilha da Madeira, insto-me a tecer algumas considerações sobre esta nova provação em que o povo da Madeira, involuntariamente, se encontra mergulhado, enquanto chovem solicitações dos mais variados sectores, umas demagógicas outras simplesmente néscias, para que seja cumprido um respeitoso silêncio. É humanamente natural que sejam cumpridos silêncios durante a polvorosa luta pela própria vida e pelos pertences individuais, porque somos guiados pelo nosso cérebro reptiliano que irracionalmente guia as nossas acções de um modo instintivo. Após este combate, e afastados quaisquer perigos iminentes, é normal que se sinta um avolumar da sede de responsabilização, por aqueles que se veem neste triste fado. No entanto, e de imediato, são publicamente emudecidos, justificado pela imposição de um respeito, amputando-se-lhes a voz no que deveria constituir um inalienável direito à indignação. No outro lado, na fonte da comunicação de massas, quem dita o que deve ser informação, perpetua o mediatismo a egos inflamáveis, sedentos de protagonismo que, por aproveitamento político ou capitalização de simpatias, vão bombardeando as populações com soluções bacocas mantendo o nível de alarme propositadamente elevado. Nestes meios, com a fuga para a frente como fio-condutor, suplica-se pela proficiência acéfala consubstanciada pela contribuição com dinheiro e víveres, pela criação de ilusórias causas ou por qualquer outro expediente que protele "ad eternum" a responsabilização daqueles que, técnica e politicamente, demonstraram incúria ou negligência. Acorrem-me à memória tragédias passadas que de tanto acautelar o tal "silêncio respeitoso", continuam por apurar as responsabilidades humanas, sentenciando-se em julgamentos sumários, sem hipótese de recurso, a culpabilidade à natureza, à conjuntura ou à sorte. Se é óbvia que a exposição às agruras dos elementos da natureza pode trazer dissabores, não menos evidente será que devem ser escrutinados se antes do incidente foram cumpridos todos os preceitos de prevenção, e investigado se gestão do referido incidente respeitou os planos existentes ou assentou numa caótica coordenação multicéfala. Actuar sistematicamente em reacção aos acontecimentos, garante um conjunto de vitórias morais, abrilhantadas pelo "elogio da mediocridade", deixando a sociedade abandonada à sua sorte. (SHHH. RESPEITO!) Bolas. Já abusei. Silêncio que se vai cumprir o fado.