Num qualquer dicionário da língua portuguesa, a palavra crise define-se, entre outras coisas, como falta de emprego, momento perigoso e decisivo, situação dificultosa do governo que o leva à demissão (esta é gira)… mas, afinal, o que é a crise? Crise é não ter dinheiro para comer, crise é não ter hipóteses de comprar os medicamentos indispensáveis para a saúde, crise é a rotura nos hospitais e nas escolas, crise é o estudante que abandona a faculdade por não ter condições para suportar as propinas, crise é a fome, a miséria, o desemprego, o corte nos salários, crise é a falta de esperança no futuro. Infelizmente a maioria dos cidadãos conhece bem esta palavra. Crise já não é este malfadado surto de incêndios que, de forma criminosa, vem assolando a nossa ilha. É uma calamidade que dilata a crise. Para outros, dentro de um círculo restrito, a crise é menos um milhão para aqui, menos uns milhares para acolá. Estes, bem poucos, falam bem alto, gritam aos céus, e não mostram um pingo de vergonha na cara, nem sequer fingem ser solidários com os mais fracos, no fundo, mostram que esta sociedade também vive uma profunda crise de valores e de princípios. O desporto madeirense não é diferente dos outros sectores da sociedade madeirense, como a saúde e a educação, que sofrem imenso com a falta de dinheiro. Mas, admita-se, o desporto madeirense paga a factura de anos de regabofe, de fartura e de falta de regras. Marítimo e Nacional necessitam e justificam mais dinheiro? Claro que sim! Mas como vão explicar à maioria que sofre que há mais dinheiro para o futebol profissional e não há para outros sectores mais necessitados? E como desprezar todos as outras vertentes do desporto? Perdeu-se uma soberana ocasião de expressar que, com dificuldades e com menos dinheiro, o futebol profissional sobrevive e pode, na mesma, ter sucesso. E que pode dar um prazer especial aos que mais sofrem. Querer ser o maior, num quadro geral de dificuldades, à custa da menoridade dos outros, no fundo, a qualquer preço, não me merece um particular mérito. Se não há dinheiro para continuar a comer filete, que se coma lombo, que já é muito bom. Mas há quem queira manter o filete, mesmo que os outros tenham fome. Perdeu-se, ainda, uma soberana ocasião para convencer as pessoas que o futebol profissional tem retorno, que o apoio que lhe é dado, é um investimento e não uma despesa. Perdeu-se essa mensagem no meio de tanta gritaria, entre ameaças e chantagens, avanços e recuos. Já ninguém ouve a razão e todos clamam e reclamam. E é pena, pois a factura deste autismo pode ser bem paga num futuro muito breve.
Emanuel Rosa, Repórter