O título deste artigo já estava escolhido há algum tempo, e não tinha nada a ver com incêndios. Pretendia contar-lhes o que sucedeu a um colega de profissão, meu superior hierárquico, que se deslocou à região recentemente e que não vinha à Madeira desde 2008. Segundo o próprio me contou com ironia, a meio caminho entre o aeroporto e o Funchal já estava francamente preocupado e a ponderar o regresso imediato a Lisboa, no primeiro avião… E isto porquê? Porque o taxista que o transportou ao hotel traçou um retrato negro e assustador da nossa terra. Contado em discurso directo, terá sido mais ou menos assim: - Então você já não vinha cá há alguns anos, não é? Olhe, tenha muito cuidado, não saia do hotel à noite nem ande por aí sozinho! Isto está terrível, é só roubos, há pessoas assaltadas todos os dias, é de esticão, é com armas brancas, você veja lá no que se vai meter. - A sério, a Madeira está assim tão mudada? E eu que gosto tanto de dar um passeio higiénico pela marginal, depois do jantar… - É que nem pense nisso! É um perigo, vai ser assaltado. Andam a roubar casas até com os moradores lá dentro, e nos supermercados nem se fala. Além disso isto é só desemprego, empresas a fechar, toda a gente a entregar as casas aos bancos, esta terra está perdida. Depois desta calorosa recepção, e da repetição deste discurso durante todo o percurso, chegou a hora de pagar: - Ora, são €40, mas quando se for embora ligue-me, que eu levo-o ao aeroporto só por €25. Se precisar de mim enquanto estiver cá, eu faço-lhe sempre um bom preço, e até lhe passo a factura em branco e você põe lá o que quiser, ok? O meu Director recusou a gentil proposta e posteriormente, nas várias reuniões de negócios que efectuámos, comentou este episódio com alguns empresários da nossa praça, gerando natural indignação. De facto, aqueles que são o primeiro cartão de visita da Madeira para muitos turistas, não podem transmitir uma imagem destas. Atendendo ao peso que o turismo tem na economia da região, urge reciclar estes procedimentos pouco dignificantes. Mas dizia eu ao começar este artigo, que o título já estava escolhido, mas no contexto do que acabo de contar. Infelizmente, no momento actual, basta retirar-lhe o ponto de interrogação para se adequar de forma dramática à tragédia que estamos a viver na nossa querida terra. A dor e o medo estampados nos rostos, o sofrimento de quem sofreu perdas patrimoniais consideráveis, o desespero de quem já perdeu tudo o que tinha, dificilmente poderão ser esquecidos. Arrasados pela força das águas em 2010, somos agora cruelmente atingidos pela violência do fogo. Que outras pragas se seguirão? Neste momento difícil, não é hora de apontar o dedo a culpados nem de exigir responsabilidades a quem andou a apregoar que há bombeiros a mais. Tudo a seu tempo. Há que trabalhar em conjunto para evitar a perda de vidas, e minimizar a perda de bens. E fundamentalmente há que colaborar, na medida das possibilidades de cada um, seja na assistência e ajuda aos desalojados, ou simplesmente respeitando as orientações das autoridades. É lamentável que a curiosidade mórbida de muitas pessoas as leve a fazer exactamente o contrário do recomendado, que é evitar circular nas imediações das zonas afectadas. Houve famílias inteiras que ontem à noite foram ver o fogo, contribuindo assim para congestionar as acessibilidades e dificultando sobremaneira o trabalho de polícias e bombeiros. Aprendam duma vez por todas que ver o fogo é no Fim do Ano e no Festival do Atlântico. Força, e coragem, gente da minha terra! Vamos ultrapassar mais esta partida do destino. A alma madeirense arde, mas não se deixa queimar…

Raul Ribeiro