Senhor Presidente, Para que não restem dúvidas eu nunca votei em si. Porque nunca lhe apreciei o género, nem a forma como faz política e muito menos os timings que escolhe para falar ao povo que o elegeu. Foi assim como primeiro-ministro e é agora como mais alto magistrado da nação. Apesar de não me identificar com V. Exa. tenho de recorrer a si, porque o senhor é o garante da coesão nacional e o responsável pelo normal funcionamento das instituições democráticas. Apesar de todas as polémicas que envolveram o governo Sócrates, nunca o país assistiu à trapalhada monumental que infelizmente varre a Região Autónoma da Madeira, terra que me viu nascer e pela qual mantenho um amor maternal. De certo tem acompanhado o "filme" dos acontecimentos, mas eu ajudo-o a recordar: considera normal o que se passa na Assembleia Legislativa, cujos trabalhos são interrompidos em quase todas as sessões, em que deputados eleitos são postos na rua (com aparatosas intervenções policiais), em que as alocuções não são mais que um campeonato crescente de ofensas de todo o género e feitio, onde quase ninguém do governo presta contas? O senhor revê-se no espetáculo deprimente de gritos, empurrões e de sessões abruptamente suspensas do parlamento regional? Considera "normal funcionamento", deputados serem expulsos de cerimónias públicas promovidas pela própria Assembleia? Realmente é mau de mais para o senhor sequer esboçar um movimento. Será normal um governo regional deter um jornal, pago pelos impostos de todos, para, a seu bel-prazer, desancar em quem lhe apetece, alegando que o faz em legítima defesa? Seria possível permitir que uma situação idêntica se passasse no continente? Seria possível uma democracia em que o primeiro-ministro, aquele que lhe presta contas semanalmente, se borrifasse para o Parlamento e o apelidasse de "casa de loucos"? O que faria? Senhor Professor, eu gostava mesmo muito que me explicasse o seu conceito de democracia, de liberdade de imprensa, de respeito democrático, do regular funcionamento das instituições, como se eu tivesse cinco anos. Falo-lhe a sério. Porque apesar de nunca ter contribuído para que estivesse em São Bento e agora em Belém, respeito a escolha dos meus pares e o senhor é o Presidente do meu país. Sinceramente não sei o que deve (quer) fazer perante uma situação como a que se vive na Madeira, mas alguma coisa terá de ensaiar. Esta passividade incomoda. Ou considera, como o seu interlocutor das reuniões das quintas-feiras, tudo isto um "não assunto"? Por muito menos colocou o país em suspenso num mês de Verão, e em plena hora de jantar para milhões de portugueses, por causa de uma norma do estatuto político administrativo dos Açores. O seu silêncio ensurdecedor começa a não ser entendido. Varrer para debaixo da mesa um assunto "desagradável" não é estratégia para o solucionar. Nós já estamos habituados a toda esta desresponsabilização da vida política nacional. Basta-nos olhar para currículos académicos de muitos dos nossos representantes. Um autêntico regabofe num faz-de-conta que anda a rasar a náusea. Não acha que tudo tem um limite e que estamos perante um caso de perda de respeito de credibilidade face aos conceitos básicos da democracia? Atentamente,

Roberto Ferreira