Dois universos, à partida, diametralmente opostos, os partidos políticos e os clubes de futebol em Portugal, apresentam um número crescente de pontos de contacto, e, no day after ao Euro 2012, pareceu-me pertinente traçar estas semelhanças. Albergues de fervor fanático, promessas de dedicação eterna, lágrimas de desilusão e cânticos de alegria, os clubes de futebol apelam a um dos mecanismos mais básicos do ser humano - o sentimento de pertença. Só assim se explica o ambiente vivido nos estádios de futebol, que tem tanto de positivo, no momento em que dois - até então - desconhecidos se abraçam no festejo de um golo da sua equipa, como de negativo, na irracionalidade de uma agressão entre adeptos de clubes adversários. Os clubes de futebol são, por natureza, e sem que isso os diminua, estruturas de consenso, de hierarquia cronológica e de arregimentação contra o adversário, tudo o que os partidos políticos hoje não devem ser. Por outro lado, os partidos são, na sua génese, estruturas de conflito, de debate - e não há que recear o desacordo, já que muitas vezes o verdadeiro perigo esconde-se no conforto da unanimismo e na imposição de um discurso universal. Submeter o reconhecimento nos partidos políticos à longevidade nessas mesmas estruturas, é negar a capacidade de transformação da política em função de uma sociedade em acelerada mutação. A revitalização da acção política é, hoje em dia, o maior desafio dos partidos, e esta deve ser esperada mais da divergência razoável que do apelo à unidade.
João Paulo Marques - Advogado