Pela surpresa, senti embaraço, quando ela chegou até mim, nos seus 36 anos, já sem a vivacidade de outros tempos, mas ainda cheia de encanto. Vinha à procura de um alento, quase em estilo de confessionário, pesarosa, remoída pelo remorso. Não é cena que um homem estime, ser confessor de quem se penaliza e procura uma causa por aquilo que lhe aconteceu. É certo que é bonito assumir responsabilidades e humildemente fazer transparecer os erros e as incapacidades. Mas em dia de aniversário não era coisa que eu estivesse à espera. Falou-me de Freud e das suas teses à volta de Eros e Tanatos que ela traduzia pelas paixões e pelos medos que a fizeram andar ao longo da vida e que também justificavam estar agora debruçada nesta introspecção que me revelava. Foi um gosto apaixonado que a fez rasgar horizontes, perfurar a terra, dar assistência e educação a quem delas necessitava. Foi esse amor louco à causa do desenvolvimento que a fez apostar nas ligações ao exterior, na aproximação das populações, e na alegria deste cantar colectivo que se sente nos arraiais ena Festa. Valeu a pena, questionava?! É porque de outro lado houve sempre o medo de ser descoberta nas artimanhas que foi engendrando, nas poeiras que foi lançando para debaixo do tapete, nos favores que fez a uns e nas traições a outros. Agora olhava para aqueles a quem tinha sorrido e favorecido e sentia-os a escorregar pelas frestas que tinha deixado nas suas construções. Agora que era obrigada a pedir a muitos a compaixão, sentia de alguns a covardia e o desânimo. Ah, se pudesse voltar a atrás… Sim, porque na sua vida nunca tinha gostado de dar o braço a torcer, de prestar contas, de respeitar quem se lhe opunha ou enfrentava. Lamentava-se de nunca ter engrandecido essas conversas, a coberto dedebates que, no fundo, a aterrorizava por podiam questioná-la. Tinha desprezado os que duvidavam da sua capacidade e elegânciae só o medo de perder audiência e estima é que a tinha forçado a cumprir essas regras que a civilização europeia foi impondo nos últimos decénios. Olhos nos olhos, questionava-me: valeu a pena? Tinha pela frente desafios muito difíceis: como manter este conjunto de serviços e prestações que foram chegando a todos os lados? Como assegurar a assistência domiciliária na Achada do Marques, ou a electricidade na Terceira Lombada, ou a escola naFurna, agora que tantos duvidavam da sua capacidade e lhe faltava o folego? Como ultrapassar essas nódoas que se pregaram à sua roupa e que a marginalizam das mesas onde se decide o futuro que interessa a todos nós? Como garantir emprego e potencialidades numa época onde parecem desabar tantas certezas que foi construindo ou se convencendo? Mas o pior era o remorso! Foi a sua arrogância que agora lhe era servida em resposta! Foi a sua mania de auto-suficiência que agora se virava contra si. " Não eras tu que eras a superior?" - atiravam-lhe agora pelas esquinas onde se refugiava. Tinham sido tantos os avisos e só agora os ouvia com o bater do seu coração angustiado. "Ainda estou a tempo? Será que me perdoam e fazemos um outro caminho? Poderei renascer nesta idade e nesta altura? Essa minha gente por quem me apaixonei ainda me dá outra oportunidade, diferente é certo, mas ainda dentro dos princípios que me fizeram nascer?" Vai Autonomia, percorre teus trilhos diferentes, como distinta é hoje a tua gente e as suas exigências. Vai autonomia não julgues que por ora mudares ou teres de mudar, nós deixamos de acreditar em ti. Vai autonomia, descobrir a virtude da democracia, a certeza de um desenvolvimento com verdade e a proximidade de um povo que continua a te adorar.

Ricardo Vieira