A 'licenciatura' de Miguel Relvas já faz parte do anedotário e da chacota nacionais. Fossem vivos Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão e bem poderíamos vê-la escalpelizada em «As Farpas», em textos como "A fisiologia da eleição para deputados" ou "O Imperador do Brasil em Lisboa", emparelhando com certas figurinhas que pululavam no país. Foi nos anos 70 do século XIX. Mas hoje, como então, há personagens que concentram o que de pior existe na política. É o caso de Relvas. 'Licenciatura' que, além de ofender quem trabalha e se esforça por vencer os degraus da vida académica com estudo e prestação de provas, é ofusca e obscura: equiparações sem critério (32 equivalências num total de 36) a que correspondem notas no limite do positivo (todas oscilam entre o 10 e o 11 - o currículo valia assim tão pouco?); um aluno de que ninguém se lembra a não ser os docentes que o avaliaram (aqui já com notas significativas entre o 12 e o 18); assinaturas do Conselho da Universidade Lusófona, que simplesmente não reuniu (nem para avaliar Relvas, nem para coisa nenhuma); um reitor que é o principal responsável por todo este processo e que, por uma estranha coincidência, quando estoira o imbróglio se demite, sendo de imediato nomeado director do entretanto criado Conselho Superior Académico da Lusófona; uma universidade que se deixa embrulhar numa licenciatura conseguida à custa de uma carreira política. Um sem fim de meandros, amizades, facilidades e penumbras, num cheiro de falta de seriedade e trafulhice. Tudo isto acontece por um deslumbramento de poder ter o dr? - possibilidade até então negada por um percurso elucidativamente abaixo do mediano, de que são destaque as notas de admissão à universidade (11.5 a Geografia, 7.5 a História e 5.5 a Filosofia). E aqui cabem questões que, a meu ver, configuram ainda hoje o essencial: Como é que, por demagogia e puro facilitismo, chegam ao ensino superior alunos com notas negativas? Que balanço se faz do processo de Bolonha? Que critérios devem presidir à atribuição de créditos? Tudo nos obriga a reflectir sobre o valor da aprendizagem e do ensino e o seu contributo para o desenvolvimento individual e colectivo, condição imprescindível para o combate pela qualidade e pelo conhecimento. Mas esta será só uma questão de ambição ou, além disso e acima de tudo, é uma questão de ética? Vou mais pela segunda hipótese porque na vida nem tudo é legítimo para atingir os fins. Relvas, 'inocente', desculpa-se - Foram as cadeias que me disseram para fazer. E fez. Há demasiado cheiro a falta de carácter num Relvas que dá moradas falsas fora de Lisboa para poder beneficiar de ajudas de custo enquanto deputado com residência na capital; que apresenta a Helena Roseta uma proposta de negócios envolvendo Passos Coelho, por acaso seu amigo e parceiro num relacionamento partidário ambíguo e comprometido; que apenas tem o 12º ano, mas descerra placas onde se lê Inaugurado pelo Dr. Relvas; que se move numa nebulosa de pressões e de espiões. Num Relvas que se presta a apresentar, como créditos para uma licenciatura, os impressos (!?) a uma candidatura universitária, velha de 12 anos, a par da presidência de uma associação de folclore (com todo o respeito que esta mereça)! Não é de legalidade que falo, mas de ética. Ou da absoluta falta dela, patente na despudorada declaração de ter sempre norteado a vida pela "simplicidade da procura do conhecimento permanente", seja lá o que isto for. E é especialmente grave a displicência que Passos Coelho (enquanto primeiro-ministro) transmite, ao manter e reafirmar a confiança política num tipo deste calibre, a quem estão cometidas especiais responsabilidades na governação. E a quem, pelos vistos, não passa pela cabeça que, numa réstia de verticalidade, a demissão seja o único caminho. Fica a valer tudo, mas a faltar superiores valores e princípios a este país sem alento, sem ânimo e sem esperança. E que só poderá reerguer-se sustentado em outros alicerces, que não os dos relvas que por aí há. Caso contrário passarão muitos anos até que as gerações futuras consigam sacudir esta dramática podridão.

Violante Saramago Matos