para Catarina não sei se perdemos o futuro ou se encontramos demasiado tarde o passado. perdemos os óculos (os de "ver ao perto" estarão suspensos sobre o peito? os de "ver ao longe" confundidos no fundo de uma pesada carteira quotidiana?); perdemos o pé (ambos, claro, mas o conforto do lugar comum consente-nos sentir que entre o corpo que quase não nos pertence e o abismo há ainda um ténue toque humano); perdemos o norte (e com ele todas as coordenadas, todos os lugares). perdemos o ar o pulso (a sensação de sentir a respiração a pulsação). perdemos a memória dos sentidos: a mão a tocar (primeiro devagar) água fria (depois com pressa) nela mergulhar; cheirar o calor da terra funda entre os dedos molhados; ouvir o primeiro acorde, vento a dançar entre ramos ou voz de quem ainda não conhecemos (se algum dia reconheceremos); saborear romã, doce, acre (se ainda nos lembramos a que soube); ver a simetria assimétrica dos veios verdes-claro no verso de uma folha nova; o primeiro descompasso do coração. perdemos a tampa da caneta de tinta permanente com a qual escrevemos a primeira carta de amor (agora nada escreverá, será tarde demais; tudo invisível, traços sem cor em papel branco); perdemos o guardanapo ocasional onde anotámos a rua, o andar, o código postal do destinatário, do destino (perdemos-nos nestes anacronismos). perdemos a camisola que nos vestiu a alegria sem passado nem futuro na fotografia que nos espantou e espantará (somos nós?). perdemos o nosso lugar na carteira da escola primária e o companheiro que connosco devagar aprendia a caligrafia do mundo (cúmplice de quem perdemos a morada da vida); perdemos o globo terrestre em cima do armário da professora (agora o mundo parece-nos ainda mais pequeno; é estranho). perdemos as socas de que não gostávamos (o pé cabia, mas a urgência da infância fazia-nos tropeçar o andar, doer o calcanhar); perdemos o vestido azul-escuro pintado a toda a largura por constelações (está ainda numa fotografia a preto e branco - e na memória - e, sim, brilha no escuro); perdemos as primeiras canções trauteadas no pomar, perdemos a paciência de esperar por contar até cem a brincar às escondidas. perdemos tardes em cima de árvores de fruto (ameixas, cerejas, maçãs); perdemos o rumo à corrente do rio (acima); perdemos noites a dançar na varanda ao som de discos de vinil; perdemos a conta aos mergulhos dados no tanque de lavar a roupa (o tanque perdeu tamanho, hoje é minúsculo). não encontramos demasiado tarde o passado nem perdemos o futuro: ontem, pelo cair da tarde, a mão forte, grande, do meu pai aninhou um pardal perdido (entre paredes). voou. vamos. não nos perdemos. não nos perderemos.
Diana Pimentel - Docente universitária