Manuel Oliveira Araújo Há alguns anos, na capital deste reino à beira-mar plantado, passou-se esta história que passo a descrever. Após uns tempos bem passados a comemorar já não me lembro bem o quê, mas que deveria de ser algo útil pois de outra forma não haveria lugar a comemorações (até parece que acredito no que escrevi!), resolvi que deveria regressar ao meu poiso de repouso. Ficava ali para os lados da Ajuda, o meu poiso de repouso de então e, como sou pessoa de andar de transportes públicos colectivos, esperei pelo autocarro da Carris - o 38, que passava pela Ajuda no seu trajecto até ao fim da carreira, no Calvário - que me levaria directamente ao pé da porta. Esperei pacientemente até que lá veio o dito, com o destino bem visível - Calvário. Era mesmo este. Entrei. O meu espírito cansado das diatribes a que tinha sido sujeito pelas referidas comemorações juntou-se ao corpo ainda mais cansado e após algumas puxadas de linha sem conseguir fisgar peixe, deixei-me ir no embalo próprio do transporte onde repousava, e adormeci. Profundamente, diga-se em abono da verdade. Tanto, que nem dei pela Ajuda quando por ela passei. É assim! Quando precisamos, a Ajuda já passou e nem damos por ela. Por estarmos adormecidos, por distracção, por estarmos tão certos do nosso caminho que julgamos não errar na paragem, sei lá, por inúmeras outras circunstâncias. E ela está lá, sempre no mesmo lugar. Basta um pouco de atenção. Mas passei pela Ajuda e quando dei por mim, estava no fim da carreira, no Calvário. Lembrei-me que queria ter ficado na Ajuda e que, por culpa própria, por desatenção, cansaço, por estar seguro de que não me enganava, não sei, cheguei onde não precisava, ao Calvário. Era longe, e voltar para trás não seria fácil, porque estava no final da carreira, e àquela hora já não havia retorno. Teria de me sujeitar a outro meio de transporte, mais individual e muito mais caro, se queria regressar à Ajuda. Hesitei, confesso. Ficar no Calvário era hipótese que não me agradava. Quem é que quer ficar no Calvário, lá onde Judas perdeu as botas. Nem pensar! Voltar a pé, àquela hora, cansado e aborrecido pelo que me tinha deixado acontecer não era uma alternativa muito agradável e o meu ego estava bem por baixo nesta ocasião. A solução encontrada foi, de facto, esperar por um táxi, transporte muito mais dispendioso, mas que me permitiria chegar ao meu poiso mais rapidamente, com mais segurança e certamente com o bolso bem mais leve. Ficar a penar no Calvário é que nunca! Tinha de chegar à Ajuda, ao meu porto seguro, depois de, por minha desatenção, já ter passado por lá sem descer na paragem certa. Aprendi assim a ter mais atenção nas carreiras que necessitamos tomar durante a nossa vida e, principalmente, nas respectivas paragens. Às vezes somos obrigados a sair uma ou duas paragens antes ou depois da Ajuda e andar um pouco (é bom, dá para ter um tempo de reflexão), o que é sempre melhor que deixar-se chegar ao fim da carreira, ao Calvário e ter de escolher caminhos sempre mais difíceis e dispendiosos para regressar ao ponto certo, à Ajuda.