Esta foi uma semana atípica. Só nos últimos três dias assistimos a quatro protestos públicos. Quatro grupos de pessoas que vieram para a rua sem ser no Carnaval Trapalhão ou na Festa da Flor. E não vieram à procura de vinho seco, bolo do caco e espetada. Antes pelo contrário. Como se diz na minha terra, ‘vieram dar um dia fora a seco’. Sem comer, nem beber e nem receber. Vieram pedir, reclamar, exigir os seus direitos. E isso, por cá, é raro. Muito raro. E o mais interessante disto tudo é que são gente como a gente. Pessoas que se viram forçadas a descer à rua, a vestir uma camisola, a exibir um cartaz ou simplesmente a testemunhar um problema que lhes aflige. Aconteceu quarta-feira com trabalhadores de uma obra no Funchal, quinta-feira com professores e ontem com um grupo de bombeiros e um desorganizado, mas coeso, conjunto de agricultores no Campanário. Não se trata aqui de qualquer forma de apologia de agitação social ou de desordem pública. Trata-se apenas do reconhecimento e da aceitação colectiva de um direito que as pessoas têm. Mário Soares chamou-lhe o direito à indignação. Indignação foi a expressão claramente demonstrada por alguns agentes desportivos durante a semana que agora termina. Mesmo admitindo que muitos deles vivem acima das suas possibilidades e que nós é que lhes garantimos os luxos e as mordomias, a verdade é que o Governo Regional revelou-se completamente inábil na gestão de um dossier que mexe com entusiasmos. Tanto mexe que foi obrigado a engolir em seco e a recuar vergonhosamente. O presidente chama-lhe teimosia própria, eu chamo-lhe uma cambalhota seguida de um espalhanço a toda a largura. No fundo, o presidente conseguiu várias piruetas antes de deixar que alguns se estatelassem. Primeiro deixou clubes e associações a arder em lume brando. Depois mandou atear-lhes fogo com um modelo desportivo que, de modelo, dizem os entendidos, tinha apenas o nome. Obrigou um director regional a defendê-lo publicamente, obrigou um secretário regional a impô-lo unilateralmente. Depois, amedrontado pelas palavras claras de Rui Alves e pelas meias palavras de alguns dirigentes desportivos, também ligados ao PSD, fez-se bombeiro para não se queimar neste fogo. Pelo meio deixou uns tantos a fazer figuras tristes. Pelo meio deixou um director regional completamente desnorteado e um secretário dependurado. Tivessem os dois uma réstea de dignidade e demitiam-se imediatamente. Não segunda-feira, não ontem. Demitiam-se quinta-feira à tarde, quando foram ridiculamente desautorizados em Conselho de Governo. Entregavam a chave a quem os tramou claramente. Mas não. O secretário parece que ainda não percebeu que foi humilhado, pisado, passado para trás. E o director, que chegou a ameaçar sair, agora pede um tempo para pensar. Faz lembrar aquelas ‘deixas’ das telenovelas brasileiras quando há arrufos de namorados: “Me dá um tempo, vai”. Acontece que o tempo está a escassear. O tempo está a mudar. Como disse ontem Paulo Portas, a falta de dinheiro obriga a inventar uma nova forma de governar. Mas isso obriga a pensar, a planear, a definir rumos. E pensar, todos sabemos, dá muito trabalho. Quase tanto como os que tiveram os grupos de professores, bombeiros, pedreiros e agricultores que vieram para a rua protestar nos últimos três dias. Independentemente das razões que os movem, qualquer um deles tem coragem para dar e vender. E para fazer corar de vergonha o secretário da Educação, o director regional e alguns dirigentes desportivos que só por se agacharem tanto mereciam descer de divisão e ser obrigados a escrever 100 vezes a palavra D-I-G-N-I-D-A-D-E.