Andando como Segismundo, na peça de Calderón de la Barca, A Vida é Sonho, questiono porque têm um peixe e uma fera malhada mais liberdade que eu. Tenho de me alapar a estas coisas dos teatros ou acabo a vender ovas de ouriços, em saquinhos de plástico diáfano, na esquina do mundo - que bem vejo os que vendem para sustento (gente muito nova ou velhinha que pinga as nossas retinas) três abóboras tenrinhas, três molhinhos de vaginha, quatro pimpinelas em sacos 'extremo' no chão... Já não me importava que uma loja do povo fosse minha parceira. Seja bem-vinda desde que nas montras não coza cachorros e os ponha em exibição "à la" cabeças de bácoros, com óculos de sol, como vitrinas portuguesas que abomino. Está tudo bem. Venha este campeonato. Por mais uns euros talvez nos safemos. Assim, também estará tudo bem. A hipocrisia já teve um manto, Não queremos profissionais. Certo. Então, contratemos tarefeiros à corja que vende a dignidade cotada a estrume. Porque não tenho a lata, ou a coragem, de Alves? Qual é o meu medo? Não valho um bosão! 'O crime maior da gente não pode ser o de termos nascido'. Marcela senhor? Sim, compro esse punhado todo para fazer uma bola e jogar um futebol que me acalme. Sempre arranharei mais a terra que o céu. Vamos a uma revista Viale? No quadro sério, normalmente auto-complacente, coloquemos, em exposição, um espécime pontual, sonhador e exigente, com este letreiro: à venda, a preços de 1998, para não bazar daqui! PS: Patrícia, esta foi para ti. Há muita carga ainda, mas não nos falta invenção. Parecendo, não é desta que o 'sol vai despencar das alturas'. Somos mesmo o que imaginamos. 'Cheira a milho, sobe a névoa'...

Élvio Camacho, Actor