Chamo-te hoje pelo nome. Não faz muito sentido porque sempre foste simplesmente avó. Não conhecemos outra.
Lembras-te do meu vestido branco com aquela fita azul? Aquela fotografia velha registou o teu orgulho pelo resultado final da tua obra. Não me esqueço daquele vestido, nem das vezes que me levavas pela mão à igreja e me alertavas para estar quieta. “Olha o Jesus”, dizias. Eu olhava, mas não gostava daquela imagem pregada à cruz. Digo-te agora, desculpa. A mim parecia-me cruel, para ti sempre foi tranquilizador. Espero que, neste silêncio em que nos deixas, estejas tu agora a olhar para ele. Em paz, como tantas vezes te vimos, na igreja onde te sentias tão bem, à margem da nossa incompreensão.
Custa-me crer que não vás às festas do Verão, este ano. Nunca perdeste nenhuma. Só quando a saúde falhou. Estavas melhor o mês passado, quando a caminho do aeroporto, passei para aquele beijinho rápido e o até à próxima, que desta vez não vai acontecer. Claro que deste uma banana ao teu bisneto para o caminho, não fosse o ‘anjo ter fome’. Estava pronta a reprimir-te, mas refreei esse ímpeto e não me importei com a roupa suja. Sempre a alimentar a prole.
Deixaremos de sentir o teu perfume de anos, comprado sempre naquela farmácia do Funchal. Será que te puseram as pérolas? De ti as netas herdaram a vaidade. Sempre ouvi dizer que herdei também o mau feitio, quando me davam acessos de austeridade, disparada em todas as direcções. Também te ficamos (eu e mana) com a lágrima fácil. Se estivesses aqui, dirias já: “Não chorem, filhas”.
Nem imaginas o silêncio naquela casa onde sempre comandaste as tropas. Às vezes chamavam-te ‘generala’. Mas avó não te zangues. A alcunha (posta por nós) era também admiração pela mulher de fibra que sempre foste. Passaste por muito. Sobreviveste até à morte de um filho . Talvez por isso tínhamos a ideia que eras meio eterna. Avó: Zanga-te, ralha connosco. Manda o avô fazer qualquer coisa, telefona à minha mãe e questiona-a porque é que ainda não te visitou hoje. O que nos custa, avó, é o silêncio e o vazio. Aquela casa no Natal sem o teu presépio.
Não te disse muitas vezes como gostava de ti, avó. Mas sei que sabias. Tínhamos a nossa própria forma de o mostrar. Se dúvidas houvesse, perdi naquele dia em que apanhaste cheia de medo o avião – foi a única vez que saíste da terra – para presenciar um momento importante da minha vida. Ensinaste-nos o amor da tua maneira. De uma aparente rispidez, que não era mais do que ternura. Despediste-te da vida, de mãos dadas ao avô, como num conto de fadas – temperado com rezinguice - que um dia chega ao fim.
Tiveste a capela cheia de gente e o funeral grande, como gostavas, e merecias. Mas avó, desta vez não apanhei o avião como fizeste por mim há seis anos. Iria com gosto à tua festa de anos em Outubro, mas não me peças para me despedir. Porque enquanto a memória não me trair prefiro encontrar-te neste molho de recordações que me deixas, como aquele vestido branco bordado e de fita azul. Lembras-te, avó? Xiuuuu, não te preocupes. Nem chores, que ficamos bem, como nos ensinaste. “Olha o Jesus”.