Opinar sobre o desempenho musical de colegas costuma ser uma tarefa ingrata, conforme as experiências já acumuladas no passado. No entanto, o brilho e impacto artístico do concerto do trio Allegro Giocoso, apresentado na sexta-feira, dia 6, no Palácio São Lourenço, fizeram-me ignorar qualquer dúvida a esse respeito e suscitaram um forte desejo de alertar o público melómano madeirense para a qualidade deste conjunto, um facto amplamente presenciado e fortemente aplaudido por uma plateia esgotada. A saxofonista Ana Irene Rodrigues e a violinista Sandra Sá, ambas madeirenses, juntamente com o pianista italiano Giancarlo Mongelli, já há anos radicado na Madeira, ofereceram uma perspectiva soberana de três obras dos compositores, ditos "contemporâneos": Russel Petterson, Marc Eychenne e Detlef Bensmann. No entanto, além de facto de todas as obras apresentadas dependerem fortemente da herança musical do passado, tanto erudita como folclórica, a clareza da apresentação da textura musical, o domínio técnico absoluto e o vigor que fez toda a complexidade rítmica vibrar com energia, fizeram com que a suposta "contemporaneidade" destas obras se transformasse em "intemporalidade", na medida em que a música extravasava as suas ramificações estilísticas e tornava-se numa experiência imediata cuja comunicabilidade espiritual foi inquestionável. O profissionalismo e a coerência deste trio "alegre", mas de todo não "brincalhão", fazem dele, quanto a mim, a surpresa mais agradável recente na cena musical madeirense, parecendo apenas uma questão de tempo antes que o seu mérito seja reconhecido noutros espaços.

Robert Andres, Musicólogo