Numa altura em que percebemos que a lei fundamental do país está sujeita a uma aplicação a prazo, ou que a mesma está refém, nas matérias de interesse eminentemente económico, da opinião juízes, regra geral pouco sábios nestas matérias, reflete-se sobre a própria Constituição da República. Tudo tem o seu tempo e só está no tempo certo aquilo que evoluiu! Não basta dispor de uma lei de lutas radicais, de revoluções acesas e discussões extremadas. É preciso acompanhar o crescimento do homem na sua ampla dimensão. A atualidade vem demonstrando que as "conquistas" conseguidas à custa da força, da chantagem e das posições determinantemente desequilibradas não garantem sustentabilidade ao longo do tempo. Ferem-se a si próprias, definham-se no tempo e enterram-se como se de um castigo se tratasse, independentemente da natureza da parte dominante. Um país que se deixa reger por uma lei fundamental desatualizada, desadequada, amarrada a vícios há muito moribundos por esse mundo, é um país condenado, vítima de políticas de choque que exigem tudo do seu povo e nada conseguem garantir mesmo que a Constituição considere a existência de grandiosos direitos. E a propósito de direitos, aquele que mais se reconhece na moldura democrática - a greve, rapidamente se transformou num luxo, ao alcance apenas de quem ganha muito acima da média (pois em Portugal os sindicatos não pagam aos grevistas), exercido numa continuada lógica de chantagem (com os resultados que são há muito conhecidos), amplamente reconhecido como um mal para o país em graves dificuldades (veja só, por exemplo, o impacto da ameaça das greves dos controladores aéreos e dos pilotos da TAP) e cada vez mais ridículo aos olhos de quem depende do dia-a-dia e enfrenta, com coragem, as dificuldades que se colocam, sem nunca poder ousar considerar a possibilidade de perder o ganho de um só dia de trabalho. Um direito que não é para todos e que não respeita os direitos dos outros, que implica com o acesso ao que existe de mais básico para a dignidade humana é um excesso que revela bem a distância a que vivemos daquilo que, cada vez mais, sentimos ser o caminho. É tempo de inaugurar outro tempo! Este país precisa de se libertar das amarras que em nome da "liberdade" o aprisionam.
Eduardo Jesus, Economista