Os exames, tal como uma competição desportiva, são um instrumento condicionador dos processos de formação. Assim, é desejável que condicionem no sentido que se pretende, ou seja, que solicitem os comportamentos que permitam desenvolver as capacidades e competências que se desejam. Para aumentarmos as probabilidades de sucesso num exame ou numa competição desportiva, é necessário treinar. Mas o problema é: treinar o quê? Infelizmente, muitos exames (a maioria?) continuam a solicitar predominantemente comportamentos de mera repetição do que foi memorizado. E as competições desportivas são encaradas (mas é mentira como vamos mostrar) como uma simples avaliação da capacidade de repetir gestos. Assim, o mais importante não será, como nos querem fazer querer, discutir se devemos ou não fazer exames, se é ou não benéfica a existência de competições. O que realmente importa é garantir que esses exames ou competições desportivas sejam promotores de processos que levem o aluno ou o desportista a serem capazes não só ganharem meios de atuação (para os dois casos - conhecimento e capacidade de utilizar este conhecimento, "performance") mas também de saber utilizá-los de uma forma eficiente. Uma imagem elementar para melhor nos entendermos - numa corrida de 100 metros vemos, muitas vezes, vários corredores chegarem com poucos centímetros de diferença. E no entanto é fácil um corredor, porque não vai tão "a direito" quanto possível, por desvios "na horizontal", mas também "na vertical", perder 1 ou 1,5m (para citar só um pormenor) durante a corrida (tendo assim que fazer 101 ou 101,5m o que inviabiliza que seja um "bom corredor"). Num mundo em galopante mudança, quem não conseguir dominar as metodologias e os instrumentos que permitam fazer análises e tomar decisões com uma visão de conjunto, terá mais dificuldades em ter sucesso. Urge que as escolas, os clubes, as universidades, os pais, os políticos, os jornalistas, se preocupem menos com os rankings (os fins) e se preocupem mais com as competências que os alunos, desportistas, efetivamente têm que enfrentar (os processos). É necessária uma rotura, mas tal não significa que tudo tenha de ser mudado de uma só vez. É preciso sermos objetivos e ultrapassar alguma ignorância dos fatores em jogo.
Hélder Lopes, Professor Universitário