F.D.F.C. Os responsáveis de certa terra dando cumprimento a uma máxima dos tempos modernos em que "anda tudo louco", "anda tudo torto", resolveram pôr em prática um ambicioso programa de adaptação forçada das populações a esta nova forma de viver a noite. A escolha da área para levar à prática tão brilhante iniciativa recaiu numa pequena zona antiga da cidade, onde os seus moradores maioritariamente idosos apresentavam, por serem velhos/lixo, o perfil "ideal" das cobaias necessárias ao sucesso de tão inovador programa. De modo a não esquecer a projeção internacional deste projecto revolucionário englobaram no mesmo uma residencial (com o nome de uma famosa padeira) e os turistas ali residentes. A estes visitantes caberia a missão de divulgação desta original iniciativa nos seus países de origem. Escolhida a área, recrutadas sem aviso prévio as cobaias, havia que acionar os mecanismos que permitissem mostrar a todos o quanto era possível viver o mundo às avessas. Tudo começou por alterações significativas de modo a criar um cenário mais aprazível. As portas da referida zona-piloto foram alvo de bonitas e magnificas pinturas. A proliferação de tascas e a ocupação selvagem da via pública completavam este quadro de festa permanente. De recordar que no âmbito deste ambicioso programa não faltava a nobre atitude do tasqueiro-empresário que em troca de um prato de lentilhas tinha por missão serenar os ânimos. Até à meia-noite tudo teria de parecer normal. Com a chegada da madrugada a aplicação do programa atingiria o seu auge. Finalmente as cobaias-residentes, velhos, crianças e alguns turistas iriam ser submetidos à inovadora tarefa de viver de "pernas pró ar". O ruído infernal dos frequentadores das tascas-laboratório invadia os espaços outrora destinados ao repouso. Cumpriam assim brilhantemente a função a que estavam destinados: não deixar dormir as cobaias-residentes. Artérias foram encerradas para protecção física dos que exagerando no consumo de álcool tenham mais espaço para as suas manifestações ruidosas, no cumprimento do programa pré-estabelecido. Contudo, esta história como tantas outras nem sempre tem um final "feliz". O maior da cidade, um tal de "Al-bu-queque", (preocupado com a sucessão ao trono do Rei João), a polícia local, os responsáveis pela saúde e ambiente, e demais autoridades, perante o sucesso do seu programa, não compreendiam a ingratidão de algumas "cobaias" que teimavam em não perceber o alcance desta nova forma de vida. Imagine-se que preferiam viver sem a "alegria" que lhes era proporcionada todas as noites pelos brilhantes mentores do programa. Não é que crianças em idade escolar, velhos com problemas de saúde, turistas mal-agradecidos e outros, cada vez em maior número, resolveram premiar os frequentadores das tascas-laboratório com banhos de água como forma de protesto. A coisa começava a ficar preta. A indústria da poncha, e o seu grande objectivo (enquanto a juventude se embebeda não pensa na crise) entravam em derrapagem. Melhor seria reunir o conselho dos sábios e edis da cidade, presididos pela famosa "Kerubina Letal" (também conhecida por padroeira dos bares da poncha) e pôr em marcha o seu prometido "levantamento" antes que as cobaias deixassem de o ser. Melhor seria voltar ao tempo em que os moradores da velha zona, e os turistas que nela pernoitam, conseguiam descansar. Melhor seria repor o percurso das manifestações religiosas que antes atravessavam uma famosa rua com nome de santa. Melhor seria pôr alguma ordem nisto, antes que o número cada vez maior dos-que-não-dormem, e se recusam a ser cobaias, perante a apatia dos mandantes, tomem em suas mãos a justiça. Melhor seria que a polícia dita de segurança desta cidade imaginária fizesse por cumprir a lei, pondo termo a esta bagunça. Os "patas-rapadas" desta história, residentes na zona centenária do cabo do calhau exigem dos xerifes do sítio a reposição da legalidade. NB. Qualquer semelhança com a realidade é fruto da imaginação. Quem não deve não teme.