Qualquer civilização com o mínimo de cultura democrática considera um escândalo haver um parlamento que ouse desviar dinheiro. O Ministério Público – o mesmo que Alberto João Jardim já deixou claro que quer regionalizar juntamente com o todo o sistema judicial de 1.ª instância – acusou, com base nos relatórios do Tribunal de Contas, três membros do conselho de administração da Assembleia Legislativa da Madeira e 11 deputados (e respectivas bancadas parlamentares) por andarem a brincar com o erário e por terem cometido crimes como o desvio de dinheiros públicos e pagamentos ilegais e indevidos. A soma desta ‘brincadeira’ que remonta ao ano de 2007 e que a Justiça não quis deixar passar oculta, ascende ao tresloucado montante de 4,6 milhões de euros, um valor bem próximo da totalidade do ‘jackpot’ aprovado para 2012 para os partidos.

Serão precisos muitos anos de amadurecimento cívico e de evolução da consciência política e governativa para que os senhores mandatários do povo percebam que, no parlamento, não são mais do que os fiéis depositários do dinheiro dos contribuintes. Os grupos parlamentares estão obrigados a honrar e a dignificar o cargo e os compromissos para os quais foram eleitos, onde entra também a boa execução orçamental do brutal financiamento aos partidos, de acordo com as regras da transparência e do cabimento do dinheiro dos contribuintes. É óbvio e claro que não podem abocanhar aquele bolo “a seu belo prazer” e “em prejuízo do erário público”. Não podem mas fizeram-no.

E quem não está minimamente preocupado é, imagine-se, o próprio presidente da Assembleia Legislativa da Madeira. Disse que não vai deixar de dormir. Nem ele nem os deputados e administradores visados na investigação/auditoria às contas. “Não devem perder o sono por causa disso”, reagiu Miguel Mendonça, que ainda insinuou “ver-se-á em que é que vai desembocar”, o que, de resto, diz muito sobre o quão quem investiga e quem julga está refém do poder e sob a alçada de influência dos órgãos de soberania da Madeira.

Com polícia à porta, Miguel Mendonça dorme bem. A primeira figura da autonomia, da democracia representativa volta a distanciar-se do mundo terreno: já não conhece a realidade, parece que não a sente, não convive com ela. Ele que pergunte aos 46% dos jovens que não conseguem arranjar trabalho na Madeira (a mais alta taxa do país e aquela que mais subiu no 1.º trimestre deste ano) se estão a dormir bem. Se os empresários numa terra onde morrem duas empresas por dia não sofrem insónias para pagar aos seus funcionários (nos Açores também estão a fechar duas empresas, mas só de mês a mês).

O governo regional endivida-se, não paga aos fornecedores, esconde facturas, afunda empresas, manda gente para o desemprego. E o que acontece? A quem governa, não acontece nada. Quem é governado, paga a conta. E depois começam a propagar – num sentido único – os princípios da equidade, o esforço colectivo, a inevitabilidade do sacrifício, a solidariedade com o Estado. Se do outro lado do balcão estiver a plebe com dívidas, as Finanças não tardam a penhorar (9 mil em 2011) as contas bancárias, as casas, os carros. No 1.º trimestre deste ano, 169 imóveis foram entregues aos bancos para compensar créditos na Madeira, o triplo do registado em igual período do ano anterior. O malparado na habitação bate novos históricos e há gente que se atira das pontes porque não consegue pagar as dívidas. Mas o povo que fique tranquilo, que o nosso presidente, os nossos mandatários, dormem descansados.

Cortam-se as refeições fornecidas nas escolas onde muitas crianças tiram a barriga da miséria, as cantinas sociais estão a abarrotar (serviram-se mais 10 mil almoços em 2011 do que no ano transacto) e a pobreza envergonhada toca a campainha das nossas casas a pedir algo para dar de comer aos filhos, numa terra onde a pobreza toca já 53 mil lares (20% da população). Mas não há campainha, alarme ou sirene que desperte os nossos eleitos que, de barriga cheia, dormem bem, com a consciência dormente pelo analgésico da prepotência e da tirania do poder. Dormem sem o calafrio da insónia, sem um revirar de olhos, sem murmúrios. São uma abundante espécie parasitante, capaz de hibernar quatro estações, mais do que os ursos da Sibéria. E só abrem a pestana com o odor das notas do Banco Central Europeu.