A frase é conhecida e tem sido repetida muitas vezes: "youneverwant a seriouscrisis to go to waste" repetiu Rahm Emanuel em nome da administração Obama indicando que muitas coisas que foram adiadas por demasiado tempo tornaram-se urgentes e têm que ser realmente resolvidas ao abrigo da oportunidade que a crise faculta. A ideia que nunca se deve desperdiçar uma boa crise parece ter surgido da comunidade médica que argumentava que uma crise (médica) devia ser utilizada para melhorar aspectos do estilo de vida ou mesmo da personalidade ou da saúde mental do doente. Infelizmente parece que só quando estamos confrontados com problemas sérios conseguimos reagir e mudar de vida. Vem isto a propósito do percurso que Portugal tem feito em resposta à crise. A intervenção da troika obrigou a um plano muito rigoroso que tem sido alvo de avaliações regulares. Na altura o plano foi muito elogiado e lembro-me de ler que era um verdadeiro "programa de governo" como nunca nenhum executivo tinha sido capaz de produzir. Passados largos meses sobre a intervenção da troika parece agora claro que o programa não está a resultar apesar de muitos até considerarem que está a ser aplicado de forma exemplar (a começar pelos alemães). O que me parece claro é que o plano de intervenção da troika era essencialmente um plano de insolvência financeira e não um plano de recuperação económica. O memorando aponta algumas alterações nos mercados de bens e serviços como a energia, transportes, habitação e telecomunicações mas sempre numa perspectiva de concorrência e não de competitividade. As medidas que podem dar um novo rumo a Portugal não são medidas financeiras, são profundas reformas estruturais que estão ainda por fazer. A começar pela reforma da justiça ou da administração pública, das autarquias e de sectores com impacto na despesa como a saúde, a segurança social e educação. Com estabilidade política e alguma abnegação Portugal tem demonstrado que consegue cumprir o plano financeiro da troika que vai falhar tal como falharam as sucessivas tentativas da Europa de controlar uma crise internacional muito grave. Agora que já sabemos que a crise é muito maior do que Portugal (ou a Espanha ou a Itália), convinha revisitar o outro lado da questão que é a estratégia para o futuro. Custa-me muito que mais de um ano depois do acordo da troika todo o debate e atenção mediática continuem centrados na contabilidade do desastre que todos sabiam ser inevitável. Eu por uma questão de eficiência e sanidade mental não me preocupo com os problemas que me fogem ao controlo. É preferível concentrar os esforços no que está ao nosso alcance mudar. A crise financeira está fora do controlo da própria Europa portanto está na altura de Portugal começar a pensar em si próprio, na sua estratégia de futuro para além das questões financeiras que sendo muito importantes não dependem de nós. Pior do que estar num barco no meio de uma enorme tempestade é não saber para onde vamos. Passamos tanto tempo preocupados em manter o barco a flutuar que quando a tempestade acabar vamos estar agarrados a um monte de destroços incapazes de navegar. Todos vamos passar pela tempestade e sobreviver com maior ou menor dificuldade disso não tenho dúvidas. A diferença que importa é saber se vamos ficar em destroços perdidos no alto mar ou mal tratados mas perto de um bom porto. Está na altura dos nossos dirigentes assumirem a sua responsabilidade e demonstrarem que podem ser mais do que porta vozes das inevitáveis más notícias. Fazer as verdadeiras reformas que podem qualificar e especializar a nossa economia. Implementar as mudanças que podem tornar Portugal um pais competitivo e atrativo numa economia global. Reorganizar o sector público para coloca-lo ao serviço dos cidadãos e da economia. Promover o mérito, acabar com a corrupção e com os compadrios. Moralizar não viajando em classe económica mas demitindo os ministros incompetentes ou aldrabões. No fundo tomar decisões corajosas que mobilizem as pessoas e as façam acreditar no futuro. Acreditem ou não a frase "youneverwant a seriouscrisis to go to waste" foi proferida por Rahm Emanuel em 2008. Provavelmente agora o próprio Obama estará arrependido de não ter tomado as decisões difíceis atempadamente e continuar a enfrentar uma criseainda maior em ano de eleições. Infelizmente até o Obama se acabou por perder no acessório em vez de se concentrar no que era fundamental. *Professor Universitário e Presidente do Madeira-ITI, Carnegie Mellon Portugal

Nuno Nunes*