Julho inicia-se com a celebração da Autonomia da Madeira. A juntar ao figurino oficial, hermético e clubístico da sua comemoração, este ano, o sentido da sua invocação, está particularmente ressequido. A morte da nossa autonomia, que nem aos quarenta anos de idade chegou, constitui uma esperança-de-vida muito baixa, africanizada. Tão distinta da autonomia açoriana, incólume ao risco sísmico daqueles dispersos irmãos insulares, que habitam ainda, sobre um vulcanismo activo. Já nem vale a pena convidar doutos jurisconsultos e constitucionalistas amistosos, que regurgitam postas sobre autonomia e aspirações dum povo temente, acrítico. Mais vale discursar para um grande espelho. Tal como o da vilã da Branca-de-Neve, que tudo branqueia, que divida pata-rapadas, dos doutores inchados, em ambiente seleccionado. A autonomia arruinada, tem traje de gala remendado. E como ainda festejamos a crédito, mantemos p'ra inglês ver, o parlamento e o governo, com ascendentes inversos, dum sobre o outro, como uma imagem de marca local. A perda do carácter ultraperiférico - decorrente do choque fiscal em curso à região - é o sublime ultraje do pulsar autonomista e sobretudo, a parte que mais dói aos madeirenses, que rogam súplicas nas novas igrejas. Descambámos, de mão-dada com o "pai". Nem a "comissão-de-menores" de Belém nos acode. Cavaco pouco se importa com a autonomia-menor. Não precisará mais dos votos da Madeira, e o seu nomeado não-eleito de São Lourenço, ainda vive o deslumbramento dalguns emigrantes, naquelas fantasias de retorno. O problema da autonomia madeirense está diagnosticado. Está mascarado de "solução", tal como o lobo-mau disfarçado de avozinha. A antiga fábula de Charles Perrault não teve final feliz, e os lobos, ainda não estão saciados.
Donato Macedo - Lic. Comunicação