1.º Como cidadão e jornalista não desejo o fim do Jornal da Madeira. Reconheço a importância da diversidade de opiniões e do pluralismo, desde que assente numa sã concorrência, cumprindo as leis de mercado. Logo, não desejo qualquer tipo de mal aos colegas do outro lado da rua, com alguns dos quais troco, por vezes, saudáveis picardias. Presumo que fica claro que a questão não tem que ver com pessoas, nem tanto com linhas editoriais, mas sobretudo com a verdade. Com os leitores e com os contribuintes. E que a solução que defendo é muito simples: que o JM continue mas que faça pela vida, como se faz deste lado da rua. Que se alimente de notícias e de publicidade e de assinantes e não seja apenas um sorvedouro de dinheiros públicos, que serve quase em exclusivo dois vectores: um Governo arisco com quem o enfrenta e uma Igreja dócil com quem a alimenta. Para sermos concretos, nem se trata de um Governo ou de uma Diocese. Trata-se antes de um presidente do Governo e de um bispo e alguns padres desta Diocese. Alguém me dizia, há algumas semanas, que o mais estranho de todo o 'caso JM' é que o Jornal já nem é do Governo ou do PSD. É de Alberto João Jardim. "É o brinquedo dele", dizia essa mesma pessoa. Nada mais verdadeiro. Porque a partir do momento em que Jardim começou a ficar isolado - caso não tenham reparado está mesmo cada vez mais isolado, no PSD e no Governo - as edições do JM deixaram de servir apenas para atacar quem pensa diferente, a Oposição, o DIÁRIO e Lisboa. Agora servem também para denegrir Miguel Albuquerque, que teve a ousadia de se assumir candidato a líder do PSD, ou outros social-democratas que se afastaram da linha seguida pelo chefe. Pelo contrário, o 'delfim' agora preferido pelo presidente passou a ter direito a um espaço que já foi de outros. O mesmo acontece com a Diocese. Todas as semanas aparecem resmas de fotografias do bispo com o seu sorriso e as suas mensagens, um e outro tão vazios. Já os padres que ousam ter uma visão diferente são ostracizados no próprio jornal que se diz defensor dos valores da Igreja. No meio disto tudo há uma grande mentira. Que é publicada todos os dias. Que está à vista de todos e que só a cegueira e o conformismo impedem a esmagadora maioria de ver. O gratuito Jornal da Madeira tem preço de capa. Está lá, no cabeçalho, em todas as edições em papel, está escrito a letras miudinhas, como em todos os jornais: 10 cêntimos. É mentira, o JM é oferecido todos os dias aos montes! Eu sei que é mentira, os madeirenses sabem que é mentira, o presidente do Governo sabe que é mentira, o primeiro-ministro sabe que é mentira, a ERC sabe que é mentira, a Autoridade para a Concorrência sabe que é mentira, até a União Europeia já o sabe. Tão grave como todos esses que sabem e fingem não saber é o chefe da Igreja Católica na Madeira, aquela que nos ensina que mentir é pecado, e que também sabe de tudo isto. Sabe, sorri para os lados e continua em frente. Essa atitude explica por que razão não tem posição firme sobre nada, nem pró nem contra. Faz lembrar aqueles adeptos de clube nenhum que dizem que são do que ganha. 2.º Tenho assistido com atenção o pacto democrático da Oposição na Madeira. Devo confessar que me parece a medida mais inteligente alguma vez concretizada pelos partidos no Parlamento regional. Sei que já outros tentaram, que houve contactos em anos que já lá vão para coligações alargadas, que houve vontade de uma união de esforços. Mas também sei que nada disso foi verdadeiramente conseguido. Desta vez, bem ou mal, foi assinado um compromisso que envolve 8 partidos da Oposição. E essa carta de princípios foi assinada na rua porque a 'casa da democracia' não aceitou abrir o Salão Nobre, atitude que é de fazer corar qualquer tímido democrata. É neste quadro que noto algumas tentativas de uma estranha tendência suicida de quem se diz da Oposição. Ainda por cima com atitudes infantis como lembrar quem teve a primeira ideia no século passado, ou ridículas, como falar em governos e coligações. Pelo que me apercebi, o acordo resume-se à actividade parlamentar e é aí que faz sentido. Tudo o resto é mera perda de tempo e só interessa a quem ainda governa. Esta falta de visão, esta perspectiva curtinha de quem tem medo da sombra só interessa ao partido do Governo. Acredite a Oposição (por enquanto apenas o PTP, o MPT e o BE) que ao dar tiros nos próprios pés, as balas, por ricochete, atingem a mais ténue esperança de mudanças, sejam elas em que sentido forem. Por ingenuidade, compromisso ou teimosia, estas atitudes abrem caminho a mais do mesmo. O PSD agradece, mas o advento da alternância enfraquece.