A agenda política das últimas semanas ficou marcada pela discussão em torno da hipotética influência de um governante junto de um órgão de comunicação social, episódio que foi precedidos pela discussão "política" do uso da expressão "coiso", da mensagem do primeiro-ministro que alertava os desempregados para a busca de oportunidades, perante a fatalidade do desemprego. Os debates políticos e as notícias da comunicação social continuam demasiado focados em discussões de utilidade duvidosa para a resolução dos problemas que deveriam consumir as nossas energias, levando-nos à "reconstrução" de Portugal. Discutir-se se é correcto chamar "coiso" ao desemprego (evidente lapsus-lingue), pouco contribui para a redução do desespero daqueles que conhecem hoje a condição de desempregado. Negar que perante a situação de desemprego será um acto consciente procurar novas oportunidades para um "recomeço" não é mais do que hipócrita demagogia política, pois efectivamente não se resolve a situação do desemprego e os casos de "fome" que lhe possam estar associados mediante truques de mágica. As oportunidades devem ser agarradas, e para as descobrir, há que assumir uma postura de pro-actividade e encarar o futuro numa perspectiva construtiva. Sabendo o que sabemos hoje, os planos de obras públicas realizados nos últimos 12 anos deveriam ter sido planificados a 25, é verdade que retardando o "benefício" de determinadas infraestruturas, mas com reflexos inegáveis no emprego. Não fora os temporalmente restritivos quadros comunitários, cujas verbas se não utilizadas tornar-se-íam perdidas, os próprios níveis de endividamento para financiar as parcelas nacionais, regionais ou locais teriam conhecido progressões mais lentas. Centremo-nos no debate destas questões e na busca de soluções pois os faits-divers não criam postos de trabalho nem geram riqueza.

Rui Gomes Coelho, Economista