Numa altura em que o país se prepara para ficar absorvido pelas peripécias da selecção no euro 2012, surgem alguns desenvolvimentos importantes no que concerne ao mercado de trabalho. Numa entrevista concedida no início deste mês, Teodora Cardoso, presidente do Conselho de Finanças Públicas, afirmou discordar da abordagem do FMI e União Europeia para aumentar a competitividade da economia portuguesa por via do corte de salários. A economista refere que o país, se utilizar essa fórmula, corre o risco de passar para o terceiro ou quarto mundo. Para Teodora Cardoso, o ganho de competitividade não deveria ser feito por intermédio do corte de salários mas sim através da qualificação e organização. Noutro âmbito, o governo parece preocupado com o aumento do desemprego jovem (neste momento cifra-se nos 36,6%). Para fazer face a esse flagelo, a estratégia passa por criar programas de estágio para 100 mil jovens. Estas medidas, ao que se sabe até ao momento, têm uma vertente dirigida aos jovens e outra de apoio às PME para a contratação de jovens desempregados. Perante o cenário actual, a iniciativa é de louvar, mesmo tendo em conta que as vantagens para as empresas advêm de terem direito a benefícios fiscais e do facto dos jovens auferirem salários baixos. No entanto, antes ganhar pouco que nada. O mercado de trabalho está em convulsão, por um lado conseguimos perceber que a estratégia da recuperação económica passa por baixar os níveis salariais, por outro também temos a noção que a redução dos salários leva a uma diminuição do poder de compra, que por sua vez leva a uma diminuição de vendas por parte das empresas e que poderá leva-las ao encerramento. Resultado: mais desemprego. Continuar neste ciclo de atrofio económico em que tudo se resolve por via de cortes salariais até pode camuflar os números do desempenho do país no muito curto prazo, mas uma visão mais abrangente permite-nos perceber que só levará à mais desemprego e à diminuição das receitas do estado, quer devido ao pagamento de mais subsidio de desemprego, quer devido ao facto de salários mais baixos também representarem menos receita fiscal para o estado. Todavia, neste momento de euforia futebolística parece não fazer muito sentido debater os problemas estruturais do país. Até porque todos preferimos ver as fintas do Cristiano Ronaldo a sermos fintados. E já agora… viva Portugal!
Pedro Nunes, Economista