Foi há 130 anos, no dia 24 de Março, que Robert Kock identificou o agente causador da Tuberculose. Esta doença, autêntico flagelo das populações, foi particularmente sentida nos sec.os XVIII, XIX e primeira metade do sec. XX. Era então conhecida pela “peste branca”, em contraponto à “peste negra”, pelo grande numero de mortes que causou em todo o mundo. Quando em 1882, Robert Kock isolou o “bacilo de Kock” como ficou então conhecido, acabou definitavamente com todas as especulações à volta génese da doença e pensou-se, que finalmente teriamos para breve, a solução e erradicação do terrível flagelo que já nessa altura a doença constituia. Agora que se conhece a causa, comentava Robert Kock, “importa estancar todas as fontes de contágio”. Na realidade, sendo uma doença contagiosa, o importante é cortar a cadeia de transmissão. Atingir esta meta continua a ser um importante objectivo no “Plano internacional contra esta doença –“Global Plan to stop T.B.” Mesmo antes da descoberta do bacilo de Kock, havia já a convicção na comunidade ciêntifica, que a tuberculose era uma doença contagiosa, consumptiva e frequentemente mortal, motivo pelo qual se passou a dar muita importância ao isolamento do doente e a uma boa alimentação. As teorias sobre a influência do clima da Madeira na cura da doença, tiveram grande desenvolvimento a partir de meados do sec. XVIII, razão pela qual a nossa ilha passou a ser consideradada um dos lugares previlegiados para a cura da Tuberculose. Esta facto marcou de forma significativa a vida social da cidade do Funchal, pelo elevado numero de pessoas que aqui desembarcavam na esperança de se curarem. Nessa altura a capacidade hoteleira era escassa para tantos nacionais e estrangeiros que aqui chegavam. É fácil imaginar a repercussão que teve este “Turismo Terapêutico” na população madeirense, particularmente no que diz respeito ao contágio e disseminação da doença, onde os doentes e os locais conviviam sem qualquer espécie de barreiras. No final do sec.XIX e início do sec XX os doentes com tuberculose já eram internados nos sanatórios, estruturas hospitalares cuja localização primava pelas boas condições climatéricas e ainda pela excelente qualidade da restauração. Nessa altura, na ausência de qualquer medicação, eram o clima,a alimentação e o repouso as bases do “tratamento “. No que se refere ao contágio, o isolamento dos doentes nos Sanatórios, tornou-se uma vantagem para a sociedade. Em relação a esta questão da contagiosidade da tuberculose, quero referir, para que fique claro que apenas a forma pulmonar é contagiosa e essa transmissão é feita exclusivamente pela via aérea, quando o doente tosse, espirra e eventualmente quando fala, em ambientes fechados e mal arejados. O Hospício da Princesa D. Maria Amélia foi o 1º Sanatório em Portugal, inaugurado a 4 de Fevereiro de 1862. Em Fevereiro fez 150 anos que entraram os primeiros 12 doentes – 9 tuberculoses e 3 bronquites - para ali serem tratados. Este edifício tão bem conhecido dos madeirenses foi mandado construir pela viúva de D. Pedro IV em memória de sua filha, a Princesa D.Maria Amélia, falecida por tuberculose a 4 de Fevereiro de 1853, aqui na Madeira na Quinta Lambert, quando tentava curar-se desta terrível doença, adquirida por contágio de seu pai, falecido uns anos antes no Palácio de Queluz. A construção do Hospício, foi uma forma de agradecimento ao povo madeirense, pela ternura como foram recebidas na região. Os tratamentos nos Sanatórios na época pré –antibiótica eram extraordináriamente demorados, anos a fio e havia um lema que dizia: “Daqui não sai ninguem por curar, ou sai curado ou morto”. É conhecido ainda um pensamento de um médico tisiologista, pai do actual Primeiro Ministro, Dr. Passos Coelho, que enquanto doente durante anos em regime sanatorial, terá escrito no seu diário: “Estou tão cansado de descansar deitado, de peito para o ar, que penso até ser enterrado de pé”. Com a descoberta da “estreptomicina” em 1944 por Alban Waksmann, deu-se início ao tratamento farmacológico que foi um dos marcos da história da doença. Na década de 60 do sec.XX, com o aparecimento de outros fármacos, a tuberculose passou a ter um tratamento dirigido e a palavra cura passou a ter sentido, como resultado de um tratamento prolongado mas eficaz. Com o advento da terapêutica em regime ambulatório, vai desencadear-se uma verdadeira revolução no tratamento da doença. O Sanatório perde a importância que até aí tinha, ruindo de uma forma radical e definitiva. Toda a rede sanatorial que até então existia, fecha definitivamente as suas portas e apenas alguns sanatórios, muito poucos, são convertidos em Hospitais, como aconteceu com o Sanatório Dr João de Almada aqui na Madeira. Nos anos 80 do século passado, outro acontecimento importante, marca a evolução e controlo dos tratamentos destes doentes, ao ser descoberto “O Sindrome de Imunodeficiência Humana”, vulgarmente designado por “Sida ou HIV”. A epidemia do HIV favorece a propagação da Tuberculose e aumenta o risco de contágio em toda a população. Esta foi uma das causas importantes para o recrudescimento da Tuberculose no final do século passado e princípio do século XXI, bem como da sua variante mais agressiva, “Tuberculose multirresistente”. O “Dia Mundial da Tuberculose” foi instituido em 1982, nos 100 anos da descoberta do bacilo de Kock, com o objectivo de chamar a atenção da sociedade sobre um dos maiores problemas de saúde pública do mundo. A Tuberculose Pulmonar tem cura, desde que seja feito o diagnóstico e o doente cumpra a medicação prescrita durante os 6 ou 9 meses que o tratamento impõe. * Fundação Portuguesa do Pulmão
Ricardo Crawford Nascimento *