Pela cidade celebra-se a Festa do Corpo de Deus… e então, Deus meu, onde estás? Não me ouves para vir socorrer os teus pobres? Deus meu, onde estás? "Deus meu, onde estás?" é uma pergunta que nasce do sofrimento do inocente. Encontrei hoje o António, cerca de 40 anos, feito Job na sua solidão e pobreza, exausto, ainda não totalmente desesperado, com um montão de "currículos" em mais uma manhã destinada à distribuição, porta a porta, na cidade à procura de um trabalho que todos os dias lhe foge e a mais outros 20 mil meus irmãos destas ilhas. Há tanta gente agora atormentada, de olhos tensos, desolada na noite que nos domina. A vida azedou para tanta gente. Alastram a desolação e a fome, as angústias e os pavores, os soluços irreprimíveis, as expressões trágicas, as faces ensanguentadas, as casas endividadas, os lares saqueados pela dor. Impõe-se a desordem do sangue, a tormenta. Instauraram-se os dias brutais, os dramas de tanto cadáver. Nestas ilhas cresce o clamor daqueles que vivem sem chão, o grito da gente gasta com destino acre. Grande parte do Povo é oprimido. Quando o Povo é crucificado, exposto ao sofrimento injusto, Deus mantém um silêncio que não faz apaziguar, faz sofrer. O silêncio de Deus é ainda mais insuportável para quem crê que o Deus da fé é um Deus vivo e não como aqueles, de quem zomba o salmista, que "têm boca, mas não falam" (Sl. 155, 5). … e então, Deus, onde estás?
Edgar Silva, Deputado do PCP na ALM