António Cartaxo Cada vez mais a actividade de polícia é aferida e fiscalizada pelas sociedades modernas, cidadãos anónimos, ou não, que fiscalizam os comportamentos dos polícias como que ávidos por descobrirem algo ou alguma coisa que vingue o seu ego pessoal contra aqueles que deviam dar só bons exemplos à sociedade. Mastigando para dentro rancores e ódios quando fiscalizados em actos de rotina policial não conseguem descortinar nada de censurável contra esses 'arrogantes e prepotentes seres de trajes azuis que aos outros tudo exigem mas que por vezes incorrem em maus exemplos' que são impiedosamente aproveitados por esses cidadãos para branquearem os seus próprios deslizes de cidadania. Cidadãos muito exigentes e críticos com todos os que executam funções socialmente disciplinadoras e fiscalizadoras, são no entanto os mesmos capazes de eternizar o seu tempo de almoço e interromper o seu serviço para tomar muitos cafés por dia, mas que consideram impróprio, despropositado e censurável se vêm um polícia em serviço num bar a beber uma bica; cidadãos que ficam possessos e enraivecidos contra a polícia por não serem omnipresentes a fiscalizar as asneiras na condução dos outros, mas que reclamam perseguição policial quando os mesmos são sancionados pela polícia em resultado das suas próprias asneiras de condução; cidadãos que consideram despropositado, exibicionismo desnecessário, se vêm uma viatura policial em excesso de velocidade para acudir a uma emergência, mas que são capazes de bradar aos céus a sua raiva se a polícia chega dez segundos atrasada a uma emergência por eles próprios reclamada; cidadãos que acham que atingir mortalmente um agente da polícia, ou feri-lo na sua integridade física, é algo que os polícias não podem reclamar porque faz parte do seu trabalho, mas que de seguida criticam os mesmos polícias por abuso da autoridade se estes tiverem que devolver uma qualquer agressão; cidadãos que recusam, de todas as formas, que alguém ouse colocar em causa as suas competências profissionais, mas que quando se pronunciam sobre a actividade profissional dos polícias revelam um enorme despudor em os considerar incompetentes e iletrados; cidadãos que reclamam com veemência pelo respeito ao seu direito de inocentes até prova em contrário, mas que se revelam julgadores implacáveis e justiceiros de opinião quando esse direito é reclamado por algum profissional de polícia; etc. Ser cidadão polícia é ser mal compreendido, mal pago, estar sempre disponível, ser exemplo de boas práticas para toda a sociedade, ser incólume às más tentações, e ainda ser uma espécie de saco de pancada das conveniências populares. Bem-haja os que conseguem ser polícias.