Primeiro deram-nos um caminho de terra batida. Depois um 'caminho de concelho', empedrado. Passámos por veredas, levadas, ruas estreitas, caminhos alcatroados, muitos caminhos alcatroados. A Madeira Nova era só 'pugresso'. Os caminhos deram lugar a ruas largas com calçada portuguesa. Rasgaram-se avenidas com passeios, abriram-se túneis, muitos túneis, vias rápidas e expresso. De repente, quando olhámos para trás, percebemos que estávamos num beco. Um beco sem saída. E agora andamos às voltas no que se pode considerar a rotunda da Autonomia. Estamos nisto há pelo menos cinco anos. Do conceito puro e legítimo de um regime de Autonomia, alguns, uns poucos, fizeram uma 'autonominha'. Fizeram desse caminho, o caminho deles, de alguns, uns poucos. O resto anda à margem, anda por andar, vai andando, vai-se andando, anda mais ou menos. Esta resignação, este conformismo, este baixar de braços alimenta alguns, uns poucos, como o guano alimenta as semilhas. A Madeira contemporânea vive hoje num espartilho que aperta uns contra os outros. Que dá tudo aos mesmos com igual facilidade com que tira tudo aos outros. É como diz o anúncio: "há uma linha que separa" os de bem com a vida, mesmo que de mal com a consciência, dos mais atentos, mais críticos. Os primeiros são gente de bem, os segundos são 'comunas ressabiados'. Pensando melhor, há ainda uma terceira categoria: os conformados. Os que nasceram nisto ou se habituaram a isto, os que comem e calam, os que vivem embrutecidos, os que se demitiram de pensar. Esses são cidadãos de cartão passado, que passam ao lado do mais básico exercício da sua própria cidadania. Ninguém lhes pede que se revoltem, que sejam como os outros 'comunas ressabiados'. Apenas que estejam atentos e não anestesiados por um fenómeno que terá explicação cultural, histórica e sobretudo sociológica, como muito bem lembrou esta semana o antigo representante da República para a Madeira. Agora liberto das imposições do cargo, Monteiro Diniz saiu da rotunda da Autonomia por onde também andou alguns anos. Voltou a ser um homem livre. E tem outra vantagem: vê de fora. E é de fora que nos diz, diplomaticamente, que lá fora, em Lisboa, estão a marimbar-se para o que se passa aqui. Que estamos entregues a nós próprios, que não estamos habituados a essas coisas de liberdades, de críticas, de confrontos saudáveis. É de fora que diz que não soubemos dar conta do recado. Que enquanto foi possível andar em frente, foi em frente que fomos. Feitos jumentos com palas, deixámos de olhar aos lados. Até nos disseram que éramos um povo superior. Só não disseram que somos um povo superiormente enganado, atraiçoado, enredado em jogos que nos fazem doer a cabeça de tanto andar à roda. É tempo de parar o cortejo. De estancar a caravana. De fincar os pés e pensar: será isto o que vivemos uma verdadeira autonomia? Da minha parte, não creio. Será mais uma 'autonominha' que serve a alguns, uns poucos. Penso nisto e sinto-me na rotunda da Autonomia. Tento parar, mas tenho um carro laranja atrás a apitar. No rádio ouço os Galáxia a lembrar quem é que põe a Madeira em marcha. Abro o Jornal da Madeira e vejo o patrão dizer que se for preciso temos gente capaz de endireitar o País. Logo ele, que não sabe como endireitar o rochedo onde se sentou. O carro da frente seguiu para mais uma volta. O eleitor de trás continua a apitar. Diz que vai ao Chão da Lagoa, que vai inaugurar uma bananeira anã, que vai a uma conferência sobre a importância das orelhas no barrete de orelhas. Que vai atrasado para as aulas do curso de arranjos florais, vai chegar tarde à visita à terceira fase da obra que já foi inaugurada e vai continuar parada ou fechada. Fachada. Não percebe que anda à margem, anda por andar, vai andando, vai-se andando, anda mais ou menos. Por mais voltas que dê do Caniçal à Ponta do Pargo, não sai da rotunda da Autonomia. É preciso fazer um desenho sobre como sair de um regime que persegue os seus e os alheios. Que gosta de espiolhar, de interrogar, de amedrontar, de ameaçar e afastar quem pensa. Felizmente, parecer ser cada vez mais os que começam a sentir a cabeça à roda. Os que tiram a venda, os que já não querem jogar mais à cabra cega. São esses que se libertam do espartilho, da linha que separa uns de outros. São esses que, em vez de continuar na rotunda, arriscam ir contra a seta. Contra as setas.