Estas são mais algumas histórias, descritas no livro Arte de furtar, séc. XVII, comparando-as com situações idênticas na atualidade. Pirata padre Um pirata, disfarçado de padre, desembarcou no Funchal, no início do séc. XVII. Visitou o bispo; deu um tostão de esmola a cada pobre que encontrou; deslocou-se à cadeia, onde, também, ofereceu um tostão a cada preso. Depressa, o pirata adquiriu a fama e o proveito de ser um abade rico e santo, diziam alguns. Com toda esta bondade, acabou por conseguir avantajadas esmolas, para dizer cerca de duas mil missas, além de ter recebido fiado tudo quanto pedia. Logo que alguém suspeitou que o 'santo', afinal, nem seria padre, este desapareceu. Médico de cavalos Em Roma havia um ferrador e tratador de cavalos, no séc. XVII, que deixou de ser visto. Certo dia, um cardeal do Vaticano, enquanto visitava Florença, ouviu falar de um médico romano, muito rico. Para surpresa, o cardeal reconheceu que este médico era o tratador de cavalos. O cardeal chamou-o e, em privado, perguntou: - Como é que Vossa Mercê aprendeu as artes da Medicina? - Oh Eminência! - responde o médico - tal como em Roma eu travava dos cavalos, aqui, trato do bem-estar das pessoas. Não mudei de ofício, apenas, mudei de fortuna! Falso juiz da Ponta do Sol Um dia, em meados da década de 1990-2000, compareceu na Ribeira Brava um homem que dizia ser o novo juiz da Ponta do Sol. Ficou hospedado num hotel e logo tratou de fazer amizades. Segundo contam, visitou várias entidades e até foi convidado para alguns almoços. Porém, a certa altura, desapareceu, deixando várias dívidas por pagar. Afinal, não era juiz. Há poucos anos, no continente, um advogado identificou-se como juiz e disse à Polícia que conduzia à pressa, porque ia para um julgamento. Tentava, assim, que não o multassem. Logo que foi detetada a falsidade, o falso juiz, não apenas foi multado, como, também, foi acusado pelo crime de usurpação de funções. Falso padre A 3 de outubro de 2011, um falso padre foi condenado a dois anos e meio de prisão, no Tribunal de Santo Tirso (Porto), pelo crime de usurpação de funções e burla qualificada. Durante quatro anos, este burlão dizia ter sido ordenado padre, em Espanha. Em Portugal, celebrou missas, casamentos, batizados e funerais em várias igrejas. Foi detido pela Polícia quando, em junho de 2007, se preparava para mais um batizado, na igreja de Santo Tirso. O mais curioso é que o falso padre tinha o dom da palavra e "celebrava missas bonitas", dizem os fiéis, até saberem do embuste. Há muitas histórias idênticas a estas, sobre falsos advogados, polícias, funcionários bancários, professores, cobradores, entre outros. Como se vê, a "arte de furtar" não é exclusiva do século XVII e nenhuma profissão dela está imune. Todo o cuidado é pouco!
João Luís Gonçalves - Procurador da República no Tribunal Administrativo e Fiscal de Loulé