
Alberto João Jardim entende que o Estado deveria recorrer à "requisição civil" para atenuar o impacto económico das recorrentes greves dos controladores de tráfego aéreo. “Espanta-me que o Governo da República deixe isto correr", reagiu, como se o direito à greve, por mais que nos custe, por mais que indigne os turistas que nos visitam ou que nos deixe plantados horas a fio nas salas de embarque dos aeroportos, possa ser debelado pela vontade de um poder autocrata e usurpador mais tentado. O que já não "espanta" ninguém são estas patachadas de quem procura assunto lá fora para distrair a 'populaça' sobre os reais problemas de cá de dentro. Eu não sei o que teria um impacto mais desastroso na economia: se a greve ou a "requisição civil" de alguém, não se sabe bem quem - contratado de subempreitada, qual ajuste directo para obras públicas, daquelas mais fiéis aos calendários eleitorais do que aos cadernos de encargos - para coordenar a navegação aérea nacional e evitar rotas de colisão entre os mais de mil aviões que sobrevoam os nossos céus todos os dias.
Eu também não gosto de greves, confesso, mas respeito o direito de quem a elas recorre. Mesmo daqueles trabalhadores priviligeados que, tendo menos razões do que outros de outros sectores, optam, ainda assim, por tentar a paralisação. Pode indignar, mas a Constituição Portuguesa está acima da minha vontade. Alberto João Jardim, que até passou incólume às greves dos pilotos e dos controladores aéreos durante os 11 dias das suas frutuosas e supostamente secretas férias pelo centro e norte da Europa no mês em que os funcionários públicos perderam o subsídio de férias, mal assentou os pés em terra firme e não perdeu a oportunidade para incendiar a ira dos madeirenses contra o Rectângulo. Nada melhor do que atirar-se à greve dos pilotos da TAP e dos controladores de tráfego aéreo, essa maldita classe privilegiada, para ganhar uns 'likes' na popularidade e ir alimentando a velha teatralização do separatismo que surge agora empolgada por uma nova encenação: a criação de um partido federalista, um fantoche de Jardim, liderado por políticos reformados e senis que acreditam serem eles os capitães de Abril da Madeira.
E Jardim entusiasmou-se tanto que até acusou os grevistas de serem os "funcionários públicos mais caros de todo o país" e de com isso estarem a "prejudicar o direito ao trabalho das outras pessoas". Só não é uma categórica lição dada com toda a frontalidade, acutilância e mordacidade porque não passa no teste da seriedade. Afinal, quem é o controlador (daqui da torre da Madeira) viciado em coordenar todas as movimentações? Quem é, em conjunto com alguns dos seus correligionários, o funcionário público mais bem pago do país, na única região onde foi permitido, há dois anos, continuar a acumular pensões de aposentação com qualquer tipo de salário no sector público, sem que moralista algum desse grupo privilegiado se lembrasse de condenar a legitimidade da excepcionalidade? E, para mal dos nossos pecados, o oneroso controlador nato é, também, um esbanjador crasso do nosso erário.