
“Estou aqui para jogar e não para apostar”, respondeu Raul Meireles aos jornalistas que lhe faziam marcação cerrada, ontem, na conferência de imprensa na Polónia, a propósito da aposta de Michel Platini que, num encontro com agências de informação internacionais, na Ucrânia, não resistiu a manifestar-se convicto de que a final do Euro 2012 “será” disputada entre Espanha e Alemanha. Bem menos recatado do que o médio português, o presidente da UEFA disparou, com toda a determinação, um perigoso e incauto “será” como se tudo estivesse já decidido. Tem direito a manifestar publicamente e aos microfones do mundo as suas preferências clubísticas, mas não pode esquecer que isso acarreta um factor de pressão aos diversos intervenientes no Euro 2012 em prejuízo da credibilidade e expontaneidade do desporto rei.
Trata-se, a meu ver, de um condicionamento latente à arbitragem, porque no futebol, é ténue a fronteira entre os favoritos e os favorecidos. E o senhor Platini - que não quer ouvir falar das tecnologias ao serviço do futebol e do recurso às imagens vídeo como meio auxiliar à verdade desportiva - não tem pejo em lançar perigosos prognósticos antes dos jogos sequer começarem, enquanto acaricia e confia o apito, na sua plenitude, aos árbitros. Árbitros que não são máquinas. Homens que erram e erros que são humanos, como aqueles que custaram a eliminação da Croácia e lançaram nos ‘quartos’ uma das ‘finalistas’ de Platini: a Espanha. A ‘superfavorita’, como gostam de chamar à selecção campeã da Europa e do Mundo, foi superfavorecida. Os croatas até comeram relva em Gdansk para liquidar ‘la furia española’, mas no final perderam pela margem mínima e resignaram-se aos dois penaltis que todos viram. Todos menos os quatro árbitros que erraram ao não marcar. Erraram porque não são máquinas. E, claro está, 'errare humanum est' já se gritava no Coliseu de Roma há mais de dois mil anos, quando os gladiadores eram lançados às feras.
Parece-me que os finalistas antecipados de Platini não são tanto o resultado da emotividade do homem e da antiga glória da selecção francesa, habituado a disparar à baliza sempre com muita frontalidade como aquela que embaraçou os governantes do país co-anfitrião do Euro 2012, ao denunciar “bandidos e escroques” na hotelaria ucraniana “que querem ganhar rios de dinheiro durante o europeu”. O prognóstico de Platini “será”, antes, o produto da racionalidade do elitismo que domina a UEFA. Raul Meireles tem razão. Ele, como futebolista está “aqui para jogar e não para apostar”. O onze lusitano deve continuar a alimentar o sonho de chegar à final de Kiev e, “contra os canhões”, procurar vencer quem lá estiver com a mesma ambição e legitimidade. Meireles que traga para casa o troféu e a tatuagem de campeão da Europa, que por cá, os portugueses vão tatuando a crise e anestesiando a depressão económica. Michel Platini, por seu turno, enquanto presidente do órgão que governa o futebol na Europa, está ali para governar. Não está ali para apostar. Nem para jogar, como parece ser o caso.
P.S.1: Uma UEFA que é mais severa a punir a exibição de publicidade do que a manifestação do racismo e da violência, diz muito sobre o quanto esta Europa esquece depressa aqueles valores que foram reerguidos na segunda metade do último século, com o contributo da Europa dos desfavorecidos, cego por um capitalismo doentio.
P.S.2: Não resisto a enxugar as lágrimas do senhor Platini que ficou, não surpreendido pela desastrosa campanha da selecção holandesa, mas consternado com a eliminação da enferrujada laranja mecânica, eliminada com zero pontos, no último lugar do grupo - a pior prestação de sempre. Portugal, que demonstrou superioridade nos três jogos deste Europeu tendo ganho dois dos três jogos de forma exemplar, não mereceu uma palavra de reconhecimento do presidente da UEFA...
P.S.3: Apesar de não ter uma casa de apostas poderosa como a do senhor Platini, vaticino uma vitória matreira da Grécia ante a Alemanha e a reedição de uma final sem colossos, disputada entre gregos e portugueses; só para contrariar os prognósticos da elite do futebol. Não seria a vitória dos superfavoritos nem dos superfavorecidos que tanto agrada aos supersponsors do Euro 2012. Seria, antes, a vitória da Europa pobre.