Como o poder político nunca manifesta o mais leve sentimento de culpa e raramente responsabiliza quem faz o disparate, quando surge a demissão de um político por mau comportamento, logo passa a ser um caso para estudo, talvez mesmo tema de mestrado ou tese para um doutoramento. Se para mim o trajecto trepidante e surrealista do jovem ex-presidente da JSD tocou por vezes o absurdo perigoso que me chegou a preocupar, também agora a sua demissão não me deixou indiferente. Que forças cósmicas ou rasteiras se moveram? Que sinais de mudança surgiram no horizonte? Que lampejo de ética política renasceu das cinzas? Sem ignorar os seus "pecados" ou esquecer as suas "tropelias", o ritual de autoflagelação pública que acompanhou a sua demissão incomodou-me. Senti-me desconfortável. Quase indignado! Elo mais fraco de uma máquina perversa que o José Pedro julgava saber dominar, ele foi a consequência e não a causa, o reflexo e não a imagem real, a cópia e não o modelo, talvez o bom aluno que teve maus professores. Ao vê-lo sozinho, perdido no labirinto ingénuo das suas convicções, a desnudar as suas fragilidades, a venerar humildemente o seu Mestre e a homenagear os seus benfeitores perante uma impiedosa câmara de vídeo, desliguei a televisão e não quis ver mais. Por momentos fiquei ao lado do solitário José Pedro pois sempre foi claro para mim que não era ele quem devia ali estar. Quando o José Pedro diz que "senti que podia andar na rua mais impune" por ser presidente da JSD, ele tem razão e não podia sentir outra coisa, pois, para ele, essa impunidade é inerente ao facto de se ser presidente. Ao longo dos seus 22 anos as coisas sempre foram assim! Quem fosse presidente podia ser mal-educado, dizer palavrões, insultar, escrever inverdades, mandar nos polícias, ameaçar subordinados, afirmar hoje e negar amanhã, desautorizar gente responsável... e passar tranquilamente impune! Apenas uma perigosa excepção: o futebol! Aí, cuidado... mesmo sendo presidente, é melhor escapar pela porta dos fundos, não vá a paixão do clube falar mais alto do que o receio de perder o emprego e a impunidade levar um cartão vermelho. Foi esta realidade que fez do José Pedro... presidente! Foi este quotidiano que ensinou o José Pedro a ser presidente! Tal como disse numa entrevista ao DN, vai parar um pouco, concluir os seus estudos e reflectir. Se nos seus estudos cruzar com a sabedoria da História, verá que os grandes generais respeitavam sempre o adversário, eram magnânimos com os vencidos e nunca se escondiam nem delegavam num soldado maçarico a defesa das suas tropas. Outros "generais" ainda maiores, fizeram da tolerância a sua arma e assim Gandhi, Mandela ou Luther King, construíram um mundo diferente e melhor. Se na sua reflexão encontrar o espaço onde a lucidez procura entender os sinais do tempo, verá que uma nova maneira de estar e fazer política se começa a desenhar exactamente na área política onde o José Pedro se move e se revê. Perante um desemprego voraz, falências diárias, perdas de apoios sociais, cuidados de saúde degradados e uma pobreza que já não se esconde, todos gostaríamos de acreditar que os "novos" responsáveis pelo futuro político do seu partido nesta Região tragam consigo o desejo de partilhar um "plano de recuperação económica e social" (e eu acrescentaria, de vivência democrática), da Madeira. Inspirado pelo jogo de futebol que mesmo agora acabei de ver, lembro ao José Pedro que a nossa selecção foi derrotada logo de entrada. Essa derrota fez crescer a determinação e aguçou o nosso engenho e arte. Já estamos nos quartos-de-final! E repare que para vencermos não tivemos que "cortar as pernas" aos nossos adversários, comprar o árbitro ou insultar os apoiantes da outra equipa. Apenas cumprimos as regras do jogo e fomos melhores!
Manuel de Brito