gosto de futuros. gosto do que está por nascer, presente já, em promessa. gosto da memória. gosto do conforto do reconhecimento (sem mas nem mais). gosto do encontro do que por enquanto apenas se intui. gosto de guardar (por dentro, em quieto silêncio) o que palavras não dizem. gosto da gargalhada surpreendida, aberta, quase muda. gosto da espera feliz. gosto da pura alegria. gosto do imponderável. gosto da temperatura da voz ante o espanto. gosto do gesto que se dá, sente, aceita. do calor de mãos ternas sobre as costas, do abraço inteiro, demorado. gosto do que se não pergunta. gosto do que se sabe, se saboreia. muito e muito devagar. com paciência e urgência. gosto do olhar que se toca, a sorrir. gosto do leve sobrolho arqueado, com uma ténue, discreta pergunta que se não faz por se saber a resposta. gosto de não saberes se bebo café com açúcar (sempre uma surpresa). gosto de crumble de maçã e de panna cotta. gosto do meu lugar naquela mesa. gosto de salada de agrião. gosto de vinho tinto naqueles copos. gosto da garrafa de água (sempre) dentro da tua mala (como é que lá cabe tanto que há?). gosto de dar os meus "cigarros pequeninos". e de fumar dos crescidos. gosto de brincar às escondidas entre as portas de casa e cantos da sala para atenuar ciuminhos catraios. gosto de ser primeiro ignorada, depois conquistada com uma arca de noé e tantos animais que nos parecem chamar. gosto de aprender a tocar ramos de oliveiras com pernas e mãos pequeninas sobre os ombros. gosto de tulipas. gosto de fazer de conta que sabemos ler (abrimos o livro, deixo-me levar pelo dedo mais sábio). gosto de sorrir por me lembrar de também gostar de deixar entrar pedrinhas nas sandálias de verão. gosto das fotografias antigas no frigorífico. gosto da demorada descoberta na merceeria do bairro, a reconhecer o lugar de cada coisa do mundo. gosto dos balões de ar quente coloridos fotografados tão longe deste lugar. gosto do sorriso cúmplice, feliz, das irmãs. gosto de recados namorados, antigos, tão presentes. gosto das flores que colhemos para levar à avó (e às vezes esquecemos num muro a caminho de casa; mas são tantas novidades...). gosto do sorriso terno da Isabel e da mesa onde pomos a vida e a conversa em dia, em horas, em meses, em anos, já tantos. gosto do quadro de ardósia na cozinha a prometer novas palavras. gosto de lápis de cor (chegados num envelope dos ctt, a tua letra tão bonita), do cheiro a madeira, do olhar que cresce a cada risco que nasce. gosto da simetria ao acaso dentro de um caleidoscópio. gosto do lençol que quase cobre "ladrões de morangos". gosto de voltar a cada um de vocês (três, quatro; e de rever a João, a Carolina, o João, a Joana, o Rodrigo, a Cláudia e a Margarida) como se a casa. gosto de amar amigos. Susana e Diogo. sem vida para nela caber o amor do que está por nascer, presente já, em promessa. p.s. - Mariana, quando fores para a escola hás-de aprender que não se escreve sempre com minúsculas; hoje a "tia" não é professora: é aluna a aprender a vida que nasce, menina (crescida) como tu.

Diana Pimentel