Caro Leitor: se é Doutor faça o favor de se chegar à frente e fale com o presidente. Arrisque-se a estender-lhe a mão e faça-o ver que está a entrar numa fase de declínio deprimente. Que está a deitar a perder tudo o que de bom fez pelo povo pata rapada que sempre confiou nele e o reelegeu durante mais de 30 anos seguidos. Agora, caro Leitor, sé é um simples pata rapada que se limitou a admirar, a curvar-se para cumprimentar sua excelência o Doutor Alberto João Jardim, o melhor é mudar de atitude da próxima vez que der com ele de frente num adro de igreja ou numa inauguração qualquer. É que o presidente acabou de deixar claro que pata rapada não fala com doutores. Que a Maria dos Anéis e o Zé dos Anzóis só servem para duas coisas que se fazem com as mãos e não com a cabeça: votar no quadradinho do partido das setas viradas para o céu e dar palmas, muitas palmas, quando o senhor doutor diz agumas das suas boçalidades aprendidas durante um longo curso de mais de uma década. Portanto, caro Leitor, a questão é muito simples: todos aqueles sorrisos, aquelas braços no ar, aquela imitação de abraço ao povo, aquele aperto de mão mole, não são mais do que pura falsidade, uma grande mentira, gestos completamente vazios e gratuitos. A mais recente verdade é esta: "Desde quando pata rapada fala com doutores?", pergunta feita por Jardim, esta semana, numa inauguração agitada na Ribeira Brava. A esta provocação, aos pata rapadas restam várias hipóteses de resposta, nomeadamente estas: Pata rapada pode falar com doutor Desde que foi obrigado a ir para o desemprego. Desde que não teve condições para estudar para doutor. Desde que foi empurrado para ir para outro país trabalhar e mandar dinheiro para cá. Desde que percebeu que neste pedaço de terra não há espaço para tanto doutor. Desde quando viu que já começa a haver mais chefes do que índios. Mas não vale a pena responder. O homem só fala com doutores. E os doutores também se agacham ou passam ao lado. Se o presidente estivesse na plena posse de todas as suas faculdades de estratégia política, já teria emendado o discurso. Já teria pedido desculpa. Já teria explicado que estava irado com qualquer coisa, que não dormiu na noite anterior, que o almoço lhe caíra mal, que estava com enxaqueca.... qualquer coisa servia para tentar remediar o erro, o grave erro que cometeu e que fez estremecer e corar de vergonha qualquer social-democrata educado. E até acredito que Jardim não tenha esse ficheiro organizado, mas sei que na longa lista de nomes inscritos no Partido Social Democrata há muita gente educada e que terá ficado chocada com tamanha desconsideração ao povo humilde e trabalhador que lhes tem garantido tantas alegrias eleitorais, tantos mandatos, tantas mudanças na sua e nas nossas vidas. Esse povo, que um dia o mesmo Jardim chamou de superior, esse mesmo povo levou agora uma tremenda chapada que o deixou de cara à banda. Foi mal tratado, foi injustamente enxovalhado. Logo num momento em que o povo vive angustiado, que não sabe como chegar ao fim do mês, que não sabe o que deitar na panela, logo agora quando precisam de um carinho do presidente leva não apenas um raspanete público como a humilhação de um bolachão à frente de gente. De toda a gente. E vindo de quem vem, de quem se queixa dos inimigos, dos que lhe espetam facas nas costas só porque se atrevem a discordar. Com aquela frase, Jardim espetou nele próprio não uma mas várias facas. Porque o madeirense não é de facto um povo superior, e sabe disso, mas também não é gente de deixar que façam deles 'gato sapato'. Durante trinta anos, Jardim soube disso e apaparicou os patas rapadas, misturou-se com eles, fez-se de pata rapada também. E agora, de repente, deu-se a ares de único importante apenas porque foi vaiado, contrariado. Comportou-se como o presidente mimado que sempre foi, mas um dia a chupeta tinha de acabar. Como diria Boss AC, mesmo que hoje não seja sexta-feira "alguém lhe arranje um emprego bom, bom, bom, bom já, já, já, já"!