A Constituição de 1976 transformou os quatro Distritos Autónomos em duas Regiões Autónomas. Enquadrada na nova Lei, a RAM criou o Serviço Regional de Saúde. Há aspectos basilares na Saúde Pública. Os responsáveis têm de prevenir as possíveis pandemias e responder sem hesitações perante doenças que a ciência há muito domina. Obedecendo a estas regras, o Estado Novo esteve atento à tuberculose e, com milhares de homens em África, controlou a malária. Os madeirenses, nem no seu pior pesadelo admitiriam regredir neste campo. Foi nos primórdios da chegada à terra do leite e do mel, com a criação do SRS que, com propriedade, saudosa voz referiu que na vigência do primado do espírito, com tostões, se fizera um hospital, chegados ao espírito dos primos, sem boas contas, criava-se a mais vistosa e cara pena de pavão. O hospital entrou em obras sucessivas. Criaram-se e melhoraram-se Centros de Saúde. Era impossível não termos melhor saúde! Os problemas, sempre que surgiam, afogavam-se em dinheiro, melhorando remunerações, investindo em equipamentos. Inaugurações em catadupa induziam imagem de eficácia. Regras, de disciplina financeira e técnica, foram-se, progressivamente, esquecendo. Preocupações financeiras nunca tiraram o sono aos responsáveis. O dinheiro foi um bem inesgotável até Out.º 2011. Foram os tempos em que a 'troica' não mandou aqui. Na década de oitenta, face a um surto de diarreia estival, o SRS, emitiu um comunicado pondo termo a especulações. Disseram-nos: podem estar descansados. O agente patogénico está identificado e já tomámos as medidas adequadas. Os responsáveis assumiram as suas competências, na esteira daquilo que fora o passado, com a tuberculose e a própria malária, com as vacinas preventivas naqueles que rumavam a África. Assim acalmaram-se as populações e incutiu-se confiança. Aquilo que foi a grande alavanca para a criação do SRS - a adesão da classe médica - perdeu fulgor. Aos médicos é-lhes, eticamente, imposto que o trabalho efectuado no hospital seja igual ao do consultório. Não pode agradar, ouvir ou ler que no hospital apenas querem ganhar dinheiro. Gostariam, têm direito a isso, da palavra de apoio da hierarquia. Essa mesma hierarquia, no respeito pela dupla responsabilidade dos médicos perante a Ordem e o "patrão-estado", deve agir, quando houver razão para tal. À hierarquia cabe a responsabilidade política, à Ordem dos Médicos a responsabilidade técnica. Qual a explicação para uma morte, por malária, num hospital em 2012? A hemato-oncologia, como é que está a corresponder às solicitações dos doentes e famílias? O quotidiano da urgência do hospital, como funciona? Haverá gente dependurada no telefone, quando devia calçar luvas e ajudar onde for necessário? Às famílias pede-se para levar medicamentos para o hospital porquê? Com que normas? Estamos pior do que no tempo do Estado Novo com a tuberculose (hoje diz-se: oncologia) e da malária nem se fala. A pena de pavão perdeu o brilho. A pusilanimidade dos dirigentes levou a população a deixar de acreditar na eficácia do sistema. Cavalgando um corcel feito de arrogância e silêncios, eleitos e nomeados, cabendo-lhes explicar tudo isto, ignoram factos na esperança de que o tempo os faça esquecer. Isto apoquenta-nos! Assusta este silêncio dos (ir)responsáveis. A história ensina-nos que estas coisas se sabem como começam e não como acabam. Ignorando silêncios, a população alemã, sob o totalitarismo nazi, horrorizada, tomou conhecimento, quando já nada podia fazer, que em seu nome se gerara Treblinka e o Dr. Mengele. Daria, neste momento, muito jeito que a Saúde não estivesse regionalizada. Não sei imaginar aquilo que já teríamos ouvido, e, lido, sobre a irresponsabilidade do Estado. Não ouso brincar com este e outros temas com os quais, no passado, algumas vezes parodiei situações. Há pessoas a sofrerem e por respeito para com elas o sarcasmo foi banido. Face à situação criada, não resta outra alternativa que não seja colocarem os lugares à disposição dos representados - os cidadãos - pois só assim poderemos voltar a acreditar no SRS. Falem, e falem verdade, srs. (ir)responsáveis! P.S. O alemão Klauss Friedrich, 120 dias depois do seu elogio ao Sr. Pres. do GR, e crítica à Chanceler, no JM, órgão descredibilizador da Diocese, nunca mais escreveu. Diz-se que, aproveitando a Primavera, recria em solo alemão, o filme Música no Coração. Convidada, Julie Andrews recusou a nova versão pelo que, Klauss, fiel à admiração pelos "produtos regionais", escolheu uma aborígene para companhia.
Gaudêncio Figueira