Um dia destes, ao entrar numa loja de "artigos regionais" da Madeira, vi algo parecido com uma jogadeira. Perguntei quem fazia e que nome lhe davam, ao que a empregada respondeu: "São fisgas, penso que vêm de fora. Mas tem o nome Madeira, está a ver? Não sei se vêm da Coreia como aquelas coisas", acrescentou apontando para outro cesto. Fiquei sem resposta durante alguns minutos. Até que ganhei coragem e disse à senhora que aqui se chamam jogadeiras e não fisgas, e expliquei-lhe o seu objectivo. No final da primavera, já com um cheirinho a férias grandes ou de Verão, férias da escola, claro, é época dos pássaros saírem dos ninhos e começarem a testar os primeiros voos. É (era) também a altura da rapaziada procurar uma estaca de urze, um pedaço de câmara-de-ar, uma ponta de couro de uma bota velha e um arame das flores do enfeito do arraial do ano passado. Combinava-se com os amigos ou vizinhos e, numa destas tardes grandes de sol, quando já estavam reunidos todos os materiais para fazer uma jogadeira, metia-se mãos à obra. Ver quem tinha a melhor, mais bonita e mais bem-feita, era o primeiro objectivo. Por vezes gerava-se alguma discussão e raramente havia um consenso. O segundo, e principal objectivo, pois era para isso que se faziam as jogadeiras, era ver quem tinha melhor pontaria para os pássaros. Quando a pontaria estava afinada e havia muitos melros pretos dava direito a petisco. A identidade de um povo não está só nos grandes feitos dos seus heróis, antepassados ou presentes, mas também, e cada vez mais, nestes pequenos/grandes pormenores que o diferencia. No Norte, vamos continuar a levar a jogadeira no bolso de trás para atirar àqueles melros que nos impeçam de caminhar.
Joel Freitas, Presidente da ACIN