Nunca uma vitória da Selecção de Portugal, numa competição tão importante, deixou tanto amargo de boca. Portugal cumpriu o essencial, ganhou. Se fosse possível, o mais conveniente era nem nos lembrarmos do que ficou para trás e começar já a pensar no que temos de fazer frente à Holanda, no próximo domingo. Na contabilidade dos pontos nada está ainda definido no grupo de Portugal. Até a Alemanha ainda pode ficar de fora, se se conjugar uma série de imponderáveis. E um desses imponderáveis é chegarmos domingo à noite com um discurso totalmente ao contrário, porque Cristiano Ronaldo teria ‘ressuscitado’ e feito o que ontem não fez, apesar de tão simples. Pois, futebol é isso mesmo, dirão os entendidos. Grande parte do que se viu ontem foi mau de mais. Contra uma das selecções mais fraquinhas deste Euro’2012, Portugal voltou a tremer das pernas. Tudo corria de feição, já tínhamos marcado dois golos de belo efeito e melhores circunstâncias seriam impossíveis para a real criatividade e capacidade de improvisação de alguns dos nossos atletas. Essas qualidades acabariam por vir ao de cima, de facto, mas utilizadas no pior sentido: fomos criativos a complicar lances fáceis, verdadeiros mestres do improviso quando era necessário um simples chuto para o golo. E é aqui que entra o ‘nosso’ Cristiano Ronaldo, ele que na Selecção já primou várias vezes pela ‘ausência’, mas nunca tinha dado tanto nas vistas por ter estado ‘presente’ nas perdidas mais escandalosas de que há memória. Falar de Cristiano Ronaldo implica analisá-lo sobre muitos outros ângulos, que não apenas os fabulosos golos que marca e, desde ontem, pelas fragilidades até agora quase exclusivas de Nuno Gomes ou Hélder Postiga. A estrela madeirense – agora que falhou golos de baliza aberta volta a ser ‘jogador madeirense’ – já não tem 19 ou 20 anos e toda a tolerância pelas suas atitudes inconscientes. Mais crescido, mais maduro, agora ‘capitão’ da Selecção, exige-se-lhe que tenha outra postura. Não, não é obrigado a dar todos os autógrafos que lhe pedem, nem a disponibilizar-se para todas as entrevistas que entendam solicitar-lhe. Mas não será pedir muito que não seja o único ‘capitão’ que não cumprimenta os árbitros auxiliares no início do jogo, ou que festejar golos de outros colegas não seja aquele espécie de frete. Corresponder e agradecer o apoio dos adeptos também deveria ser um gesto normal, espontâneo. Se a esses gestos e atitudes quiser juntar a prudência de referir-se a Messi com outra elegância e respeito, verá que aumentará a tolerância dos adeptos e da imprensa nos momentos menos felizes como os de ontem. Sim, só nesses momentos, porque quando se ganha sem tremer – ou se marca golos – tudo é simples. Mas efémero. Quando falamos de Cristiano Ronaldo há que, também, não esquecer que ele é humano. Porque às vezes esquecemo-nos disso. O peso da responsabilidade, que para ele é sempre maior que para outros, por vezes também afecta a sua rentabilidade dentro de campo. E quem está do lado de fora não pode, em simultâneo, exigir-lhe que seja um jogador mais colectivo e que resolva sozinho tudo o que os outros não conseguem ou não sabem. Haja coerência! Pessoalmente, admiro muito mais a versão ‘egoísta’ de Cristiano Ronaldo, quando ele se mentaliza de corpo e alma que não há impossíveis dentro de campo, do que a versão ‘colectiva’, onde ele se vê obrigado a partilhar demasiado a bola e as jogadas. O seu perfil é o de jogador que desequilibra e surpreende pelas suas qualidades individuais. Se assim é, que tente uma, duas ou até cinco vezes. Em condições normais, até à terceira tentativa já há resultados à vista. Domingo, contra a Holanda, Cristiano voltará a carregar todas as responsabilidades. Oxalá deite por terra estas e todas as outras considerações menos simpáticas que, por estes dias, ecoarão por todo o lado. Ficamos à espera.