Manuel Oliveira Araújo Oscar Wilde escreveu: "A única diferença entre um capricho e uma paixão eterna é que o capricho pode durar". Já todos tivemos as nossas paixões eternas e alguns, pequenos ou grandes, caprichos ao longo das nossas vidas. Mas, saberemos diferenciá-los? Uma paixão é uma impressão viva, uma grande inclinação ou predilecção, um afecto violento, um amor ardente, o objecto desse amor. Um capricho é uma vontade súbita e infundada, um aferro obstinado, uma fantasia, um empenho em levar a cabo uma coisa sem razão ou motivo que obrigue. Uma paixão é "eterna" enquanto dura a perturbação, o movimento desordenado do ânimo, e quando passa, é um grande desgosto, um grande pesar. Vivemos tempos conturbados, desordenadores de ânimos, eventualmente motivadores de grandes pesares, e somos nesta altura levados por um capricho nacionalista, a ter uma paixão pelas nossas cores, pelos jogadores de futebol que disputam um campeonato europeu, quiçá para esquecermos as dificuldades que somos obrigados a enfrentar devido a vários caprichos, colectivos ou individuais, de quem sem paixão e caprichosamente, anda a mexer todos os cordelinhos de uma economia que tarda em recuperar. Será que entre os que comandam, seja ao nível global, seja ao nível local, sob uma capa de grande paixão pelo "esforço" que dizem fazer, não se escondem caprichos bem maiores que a paixão? Todos os dias ouvimos os comandantes do mundo, global e local, porque, sim, há imensos mundos neste mundo (o tacho de presidente de um banco, de uma agência de 'rating', de um país, de um governo, de uma Câmara, de tanto lugarzinho transportador de alguma "importância" pessoal, de uma qualquer empresa, pública ou não), dizerem que são eles que têm o conhecimento de como se devem fazer as coisas e que nós, pobres mortais, devemos estar gratos pela paixão que têm pela causa pública, onde só estão por dever e não por outra razão (por capricho, nunca!), e que dariam a vida pela sua causa, e que o nosso dever é dar graças pela paixão que colocam na resolução dos problemas que nos afligem diariamente. Mas, referindo Oscar Wilde novamente, "Uma coisa não é necessariamente verdadeira só porque um homem morre por ela". Não esqueçamos que esses homens estão somente a defender os seus tronos, os seus caprichos, que tentam definir como paixão, para que os sigamos com a cegueira própria das paixões, para que não tenhamos, dizem eles, um grande pesar, um grande desgosto, maior do que já temos actualmente, quando a paixão pelo canto do mundo onde vivemos, trabalhamos, descansamos e amamos terminar. Porque alguns quiseram ver os seus caprichos vingarem e os seus tronos continuarem sem reclamações apaixonadas. Precisamos, com urgência, de distinguir capricho e paixão, para mantê-la viva e acabar com aquele, até porque, como dizia Montaigne: "Sobre o mais belo trono nunca se sentou senão um rabo".