Ultimamente temos ouvido muitos comentários do tipo: "Se eu fosse a Alemanha, saía do Euro e deixava que todos os outros países membros se afundassem de uma vez!". Realmente quando ouvimos que é sobretudo graças ao "dinheiro Alemão" que estamos a sobreviver, somos levados a pensar: "Mas porque é que continuam a aturar os caprichos destes países que o que fazem melhor é gastar dinheiro mal gasto?". A resposta é bem simples… Porque o euro é extremamente conveniente ao maior motor da economia Europeia! É por isso que a chanceler alemã Angela Merkel passou os últimos dois anos a defender fervorosamente a moeda única. O que Merkel se esquece sistematicamente de fazer, talvez porque lhe convém, é dizer aos seus compatriotas e aos restantes europeus o que de bom a moeda única trouxe à maior economia europeia. Esta propositada falha no seu discurso veio criar um preconceito dos alemães relativamente aos países resgatados e um complexo de culpa dos países resgatados relativamente aos alemães. As grandes empresas exportadoras alemãs têm sido as maiores apoiantes do euro. É fácil perceber porquê: as exportações (das quais mais de 40% são para dentro da Europa) praticamente não pararam de crescer na ultima década (com a excepção de 2009) e continuam a bater recordes este ano, graças a uma moeda muito mais barata do que o antigo marco alemão. Esta ideia parece não ser divulgada na Alemanha, pois uma recente sondagem mostra que cerca de 50% dos alemães querem a sua antiga moeda de volta. As exportações mais que duplicaram na última década, o que ultrapassa claramente o crescimento de menos de 70% da década anterior à introdução da moeda única. Após a introdução do euro, também se verificou uma quebra nos impostos de cada um dos contribuintes alemães. Mais actualmente, a Alemanha tem-se conseguido financiar a um custo muito baixo, pois os investidores estão à procura de portos de abrigo e as obrigações alemãs são perfeitas para esse fim. Segundo um estudo da UBS, os seus economistas prevêem mais custos para cada contribuinte alemão se a Alemanha sair do euro, do que se estes continuarem a contribuir para os resgates dos países periféricos. Na prática, uma saída do euro custaria cerca de 8.000€ a cada alemão no primeiro ano mais 4.500€ por cada ano após a saída. No entanto, salvar a Grécia, a Irlanda e Portugal somente custaria 1.000€ por cada um dos 82 milhões de alemães (num único pagamento), partindo do principio que esses 3 países entrariam em 'default' e lhes seria concedido um perdão de 50% da dívida. Em suma, não me parece que nem o povo nem os dirigentes alemães possam reclamar, pois a balança continua muito favorável para o seu lado. Uma união europeia assim como está representa uma vantagem para a Alemanha, caso contrário já tinham abandonado o barco e a União Europeia já nem existia. Com tudo isto não quero dizer que se deva continuar como estamos. Com uns países a gastar muito e mal e um país (neste caso a Alemanha) a fazer de bombeiro de serviço, apagando os fogos e a tentar disciplinar os pirómanos. O que não me parece correcto, é este sentimento de culpa que o resto da Europa está a sentir em relação ao povo alemão, uma vez que a Alemanha só está a proteger os seus interesses.
Luís Pedro Branco