"Olha, sabes quem é que morreu?" Estava em Zurique, na Suíça. Ouvira falar em mais de 20 mortos em EmiliaRomagna, Norte de Itália, mas esses não eram noticiáveis para a minha mãe. Vindo dela, só podia ser alguém lá da terra. Sempre que nasce ou morre alguém, telefona a contar. "Aquele senhor do Quebra-Mar, lembras-te? Coitado. Tão novo. Dizem que foi de repente." Lembrei-me do terceiro sermão do padre António Vieira: "Todos os homens, ou quase todos (ainda que nós não o imaginemos assim), morrem de repente. Cuidamos que só morrem de repente aqueles que subitamente caem mortos, aqueles que matou o raio, a bala, a estocada, o desastre, a postema que rebentou, o bocado que se atravessou na garganta, a apoplexia, a peste, o terremoto, o naufrágio e tantos outros acidentes, ou naturais, ou violentos, ou casuais, a que andaexposta a vida e nos deveram trazer em perpétuo temor. Estes só cuidamos que morrem de repente, e é engano. Todos os que morrem quando o não cuidavam morrem de repente." Fui à Internet. Em vários sites encontrei o mesmo texto: "O empresário hoteleiro madeirense Marcos Rosa, proprietário da Estalagem do Mar, em São Vicente, e da unidade hoteleira Monte Mar Palace, em Ponta Delgada, faleceu esta madrugada, vítima de doença súbita."No Diário, um artigo recente sobre o seu percurso profissional. Tinha outros planos. Por certo, queria ajudar as filhas a crescer. Durante toda a infância e adolescência ouvi falar naquele nome, mas só em Agosto último lhe associei um rosto. Acho que não trocámos mais do que meia dúzia de palavras. Todas no dia em que abriu as portas dorestaurante Quebra-Mar para a apresentação do livro Viagens Brancas, no meio de uma tempestade que também viera de repente. Era o poder político a lidar mal com a liberdade de imprensa. Marcos Rosa, um nome, um rosto, a memória de um exercício de liberdade. Agora, a notícia de uma paragem cardio-respiratória. Naquele dia, estava tanta gente. Não houve tempo. Não houve tempo sequer para dizer-lheo quanto prezo a liberdade à boa moda de Agostinho da Silva, coisa difícil em diversas latitudes, nalgumas até rara: "A liberdade só pode existir quando todos os nossos actos concordam com o nosso pensamento." Só assim vale a pena viver enquanto a morte não nos apanha, de repente.

Ana Cristina Pereira