Independentemente do resultado do jogo de Portugal contra a Alemanha, o 10 de Junho continua ainda a ser o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. É o dia de celebrar a portugalidade, o ser português, os valores aceites como realidades que orientam, de forma global, a vida dos portugueses e da sociedade portuguesa. Na actual situação de "crise" em que vivemos, faz sentido celebrar o Dia de Portugal? Considero que, de facto, perante as incertezas e sombras que pairam no contexto nacional e internacional, vamos mesmo precisar de uma ajudinha do exterior (dos astros, da sorte, de Deus, consoante os casos), para ultrapassar as actuais dificuldades e "resgatar" Portugal da escuridão em que se deixou envolver. Talvez os astros não nos possam ajudar nesta decisiva tarefa de tomar as decisões mais adequadas para o bem da sociedade. Talvez mesmo não iluminem, da imensidão do céu, aqueles que possuem acrescidas responsabilidades políticas, a seguir os caminhos que permitem criar um mundo melhor, um lugar de justiça, de ordem e de verdade. Porventura, será mais sensato consultar a própria natureza humana e centrarmo-nos na força que reside no seu interior. Uma força que nos faz construir o futuro à medida dos nossos sonhos. A presença desta força constitui prenúncio da procura incessante do significado das cosias e do mundo, na busca dos factores determinantes das grandes mudanças na vidas das pessoas e das sociedades, onde nada acontece por acaso. Estamos a falar da coragem. Ora a coragem, como muitos ainda pensam, não é ausência de medo. É sim a capacidade de enfrentar os obstáculos, por mais difíceis e duros que sejam e de ultrapassá-los e resolvê-los, com uma vontade generosa e forte, em coerência com valores e projectos próprios. É a alegria de viver a vida perigosamente. É a força de alma perante as dificuldades e os perigos. Porém, a coragem também é a força da revolta, especialmente quando o grito por justiça não é escutado, quando a simples indignação não é atendida, quando todas as respostas se tornam ineficazes. Em consequência de tudo o que vivemos hoje, parece que a sociedade portuguesa está a perder um precioso instrumento de reflexão e acção e parece ficar mais empobrecida. Este facto traz repercussões evidentes sobre as pessoas que nem sempre fundamentam devidamente as suas afirmações e acções. Quantos, por exemplo, falam da vida, mas o seu discurso e a sua prática esconde uma cultura de morte? Quantos falam de ética, de moral, de dignidade humana, de direitos humanos, de cidadania, mas a sua vivência desconhece o respeito integral pela pessoa? Quantos falam de democracia, mas vivem enredados na manipulação e no interesse pessoal? Mais do que nunca é fundamental ter coragem para tomar as decisões mais adequadas, em cada momento, para o bem da comunidade. Ter coragem para ser coerente com valores e princípios que promovem a autonomia e a liberdade, pressupostos para que as pessoas, as instituições e as sociedades tenham uma lei própria aceite intrinsecamente e orientadora do seu próprio destino. Só está dinâmica poderá resgatar Portugal das emboscadas da "cobardia" em que se deixou cair e seguir um Plano Corajoso de Ajustamento. Esta é, de facto, uma virtude que merece ser realçada, pois a coragem faz com que todas as outras aconteçam.

Marco Gomes