A partir do momento em que perdemos as nossas memórias tudo se dissolve como as nuvens no céu. O passado torna-se em pó, arrastado pelosopro do vento, como se nunca tivesse existido. Sem memória, não há lembranças, referências de quem nós um dia fomos, perdemos a nossa identidade." Sem memória esvai-se o presente que simultaneamente já é passado morto. Perde-se a vida interior", a perda de memória, leva à tentativa do resgate dessa mesma memória através de relatos escritos, como se pode observar na obra De Profundis, Valsa Lenta, de José Cardoso Pires. Uma narrativa autobiográfica que coloca desde o início o princípio de dúvida sobre quem é. A escrita neste livro apresenta-se em duas dimensões: a escrita como exercício de recuperação damemória e a escrita da vivência do narrador, que se pode recuperar através do seu testemunho. Durante a sua perda de memória trata o "Eu" como se fosse um "outro", uma pessoa desconhecida, por não ter memórias. Está aqui ainda presente, um contraste entre o excesso de memória e a amnésia, pois o excesso de memória pode-nos levar ao esquecimento. É através dos sentidosque captamos a realidade e criamos lembranças. Sem a recordação é como se todos os dias que vivemos, é um novo dia na solidão. Durante momentos da nossa vida, todos nós gostaríamos de sermos "desmemoriados", esquecermos por segundos alguns acontecimentos do nosso passado, contudo, sem este não poderíamos construir o nosso presente nem futuro, seríamos apenas meras "almas" ambulantes no Mundo.

Filipa Silva, Colaboradora AAUMa