
Há duas lições elementares que se podem retirar do impasse governativo a que chegou a Grécia. Primeiro, que os partidos extremistas – radicais de esquerda e de direita – são os que mais lucram com a ira do eleitorado desiludido com a prestação dos partidos moderados que durante anos foram renovando mandatos de confiança e dividindo entre si, a acção governativa. Porém, na hora em que partidos como a Esquerda Democrática, de Alexis Tsipras, são convocados para com toda a legitimidade assumir parte do risco da governação, acabam por se revelar inconsequentes e pouco predestinados a encarnar o espírito necessário para a construção da aliança que o país tanto precisa.
O veredicto do povo foi claro: a maioria dos gregos que votaram rejeita o programa de ajuda externa nos moldes em que foi acordado e ninguém aceita ser condenado a pagar uma dívida até à 4.ª geração. Penso que qualquer cidadão subscreve que povo nenhum merece o massacre daquele programa de pagamento do sobreendividamento público, inexequível, com taxas de juro absolutamente proibitivas. Mas está visto também que ter um rumo de alternativa que rompa com o programa de resgate da dívida pública, de resto já assinado com a troika, e a constituição de um governo de salvação nacional, são dois bens tão impreteríveis quanto incompatíveis. Duvido que um sobreviva sem o outro.
Esta crise política que se abre na Grécia depois de tantas outras, arrisca-se a ser o canto do cisne da nação a caminho da bancarrota e uma réplica de indisciplina financeira que força a Europa a, também ela, arrepiar o caminho da austeridade e a reflectir sobre a caricatura em que se está a tornar esta União de magistérios de influência, sem coesão económica nem social.
Os ‘coveiros’ da ruína foram expulsos da Acrópolis, mas a solução é uma aliança nacional que tarda. Ninguém quer ser amigo da Esquerda Democrática não porque os deuses voltaram as costas às minorias, mas porque as suas metas são qualquer coisa de utópico e ousado. E mais titânica a missão se torna porque a política na Grécia, tal como em Portugal, comunga de um grande preconceito: sem tradição de governos de coligação com mais de dois partidos, estereotipou-se que qualquer convergência com partidos minoritários representa uma humilhante derrota ideológica, a morte de uma sigla e uma abominante submissão de princípios, quando deveria ser um sinal de maturidade política, de inteligência e altruísmo, não estivesse em causa a insolvência de uma nação.
Quando George Panandreou, filho do pai do PASOK, o Movimento Socialista grego, venceu as eleições legislativas em Outubro de 2009, substituindo o conservador Kóstas Karamanlís, o défice nacional já atingia os 127% do PIB, quatro vezes acima do limite imposto pela zona euro. Da noite para o dia, a Grécia tinha de inventar um Zeus terreno capaz de por termo a uma tradição de subsídiodependência, de mordomias, de borlas entre outras excentricidades que, ao longo de décadas, serviram para comprar a paz social aos poderosos sindicatos helénicos, sem acordar Ares, deus da guerra.
Tão alto foi o voo, tão estrondosa foi a queda. O tesouro nacional foi delapidado a um ponto tal que só a venda em hasta pública das ilhas do mar Egeu ou a penhora da nobre História da Grécia Antiga, devolveria a estabilidade financeira ao país. Quando um governo está obrigado a executar em dois anos, as reformas que não implementou em duas décadas, acaba de assinar a sua própria sentença e o resultado é ruinoso. De repente todos se fartaram daquele pêndulo da social-democracia, das políticas de retórica populista, conservadora e anti-ocidental. De repente, todos se lembram que não há governos inimputáveis, mesmo que ágeis em ‘comprar’ a consciência do eleitorado e a apontar o exterior como a origem de todos os males enquanto enveredam no auto-elogio das obras do passado, caminhando para um abismo sem fundo nem pontes que permitam ao povo, alcançar com o olhar sequer, o início do amanhã, o princípio do futuro.