Algumas deslealdades públicas só não comprometem em demasia os infractores, graças a estranhos hábitos que tudo toleram. Mas convém denunciá-las, embora seja por vezes mais cómodo não questionar opções.
Há pelo menos uma, destes dias, que mexe com o meu profissionalismo. Dizem-me que o jornal pago pelos contribuintes publicou um ‘desmentido’ de quem tutela o Turismo na Madeira, e que por isso tem o dever de lealdade ao que jurou solenemente no dia da tomada de posse. Um escrito que desrespeita o trabalho por mim assinado na edição da passada sexta-feira, embora expediente banal, o de desmentir sem sustentação, pois considerar que a peça ‘Floreados Estatísticos’, “extrapola, errónea e levianamente, conclusões que não correspondem à verdade” não belisca o que foi escrito.
A secretaria regional da Cultura, Turismo e Transportes, apesar de não estar habituada ao contraditório, tem todo o direito de reiterar a previsão da taxa de ocupação média hoteleira avançada antes e durante a Festa da Flor 2012, na ordem dos 90%. O que não pode é fazer de conta que não existem já outros dados, os fornecidos pela ANAM e pelos grupos hoteleiros, que para além de confirmarem que as estatísticas oficiais estão empoladas, deviam abrir um debate sério sobre a forma como se obtêm resultados que falseiam a realidade.
Não é o DIÁRIO que fez na Festa da Flor “uma cobertura mediática exemplar” que agora vem “denegrir o sucesso”. Exemplar é ser verdadeiro em todas as circunstâncias e não só quando dá jeito e há motivos para festejar. E não é o DIÁRIO que coloca em causa a taxa de ocupação média avançada oficialmente. É a própria soma das partes, que por muita vontade que haja, não chega para sustentar o todo, apregoado com entusiasmo.
Espero que o mesmo texto ofensivo nos chegue em jeito de ‘Direito de Resposta’, de acordo com a lei e expurgado de termos que configurem crime. O processo em que será inserido contribuirá para pôr cobro a fraudes acumuladas no sector, cujo êxito também é decisivo para a nossa existência.
Haveria mais atropelos por dissecar. Caso da concorrência dita desleal, acusação que ganhou nova dimensão graças aos efeitos do ‘arrastão’ nas lojas Pingo Doce, prática tolerada pela própria marca, ao promover num só dia descontos de 50% para compras no valor superior a 100 euros. Independentemente das facturas por pagar, pelos meios que vivem do investimento publicitário e também pelos consumidores, importa saber se houve ilegalidades nesta acção específica. Não é pelo facto de ser normal em todo o mundo que deve ser legitimada entre portas sem ser escrutinada. E se houver infracção, que haja punição exemplar. Para os prevaricadores, mas também para os cúmplices.
É óbvio que muito do barulho que ainda ecoa a propósito desta campanha é gerado por gente hipócrita, que até agora nada havia dito sobre práticas e ajuntamentos congéneres em Portugal e na Madeira. O DIÁRIO é vítima de ilegalidades no sector desde 2008, patrocinadas pelo Governo Regional, e nunca percebeu vontade da Inspecção de Actividades Económicas em resolver a concorrência selvagem, nem ouviu dos diversos sindicatos qualquer condenação pela prática lesiva do seu futuro. Aliás, em tempos que já lá vão o Sindicato dos Jornalistas resumiu o escândalo a uma guerra comercial entre duas empresas. E pouco mais.
Um Governo que viola tudo o que é lei em Portugal, que põe em causa de forma grave o pluralismo, que incita à prática de dumping, que distorce as elementares regras de mercado e nada lhe acontece, abre portas a um sem número de deslealdades. As últimas são cruéis. Fabrica ‘cartoons’ que fomentam a violência e incitam à intimidação de jornalistas. Escreve com conivências diversas, levando a que o trabalho jornalístico seja substituído por notícias sem assinatura. E pior, arrebanha cúmplices que trocam as grandes causas por espaços mediáticos, que não usam das mesmas justificações em situações similares e que trocam o essencial por fogachos.
Apesar dos boicotes à liberdade de informação, das ameaças de expropriação, do corte de assinaturas, das ordens públicas para o corte da publicidade por parte dos empresários e de todas as patifarias medonhas sem paralelo no mundo civilizado, resta-nos resistir.
Três pontos finais...
. É sem dúvida uma frase candidata ao Pulitzer 2012. Está escrita em papel, dizem ser de Jardim e versa sobre o Jornal da Madeira:"...É uma lição de imprensa livre neste País em que se está impor o pensamento único". Único, de facto!
. 81% dos franceses foram votar nas presidenciais, eleições ganhas por quem assumiu combater a austeridade e encabeçar um movimento de mudança que liberte a Europa do sufoco financeiro. Uma participação exemplar, em consonância com todos os elementares gestos de uma democracia madura e estável.
. O líder da Ordem dos Economistas na Madeira, Eduardo Jesus, voltou a mostrar que quem sabe não espera acontecer. Por muito que alguém não queira que se pense no futuro, organizou com sucesso mais uma Conferência Anual do Turismo. Em seis anos fez mais pelo sector do que muitos dos que andam no regime há mais de 30 anos. A sistematização das reflexões em torno do turismo, consubstanciadas em conclusões e recomendações, são a melhor prova.