
Alberto João Jardim deveria ter ido de manhã ao Parlamento assumir aquilo que confessou à tarde aos miúdos da Escola do Curral das Freiras: que sofre de vertigens “à beira do abismo”. Na sala de aula as respostas saem fáceis às perguntas feitas, sempre há hora e meia para contar a velhinha história das odes e dos grandes feitos, fingir que a Autonomia existe, que a Democracia é escrupulosamente cumprida. Sempre dá para encher o peito, qual general sem medo, infamemente apunhalado pelas costas pelos inimigos internos e externos, mesmo que horas antes tenha estado “entrincheirado” na Quinta Vigia e ordenado ao seu inexperiente soldado raso, que nem esteve sequer meia dúzia de meses no batalhão do governo, para enfrentar a inimiga moção de censura e explicar a táctica da ocultação de facturas.
Na sala de aula, ninguém colocaria em causa aquele “que põe a Madeira em marcha”. Numa turma do 5.º ano, que miúdo ousaria elucidar o prof. Jardim que os sintomas de tonturas rotatórias já são demais evidentes num governo que sempre escondeu as náuseas e que sofre de ilusões de movimento há mais de 30 anos? Por acaso alguém iria perguntar pelo equilíbrio das contas públicas e pelas 2 mil facturas perdidas numa eventual ‘vertigem periférica’? Alguém questionaria a lógica da semilha das prioridades políticas do seu governo, pela água das piscinas e pelo gás nos balneários? Alguém ali avaliaria que, pela forma como o presidente foge das audições no Parlamento, parece que sofre de distúrbios do ouvido, o que, por si só, pode ser sintoma de vertigem? Que está por corrigir a vertiginosa postura autocrata do seu governo e da maioria subserviente que deambulam, de mãos dadas, numa encruzilhada de erros nos actos e omissões que ainda agora começaram a ser pagos por 260 mil madeirenses arrastados para o fundo do abismo enquanto Alberto João Jardim agarra-se cegamente ao poder a perguntar onde está o abismo, abeirando-se dele?
A situação económica e financeira em que a Madeira está mergulhada não se coaduna com retóricas de campanha. Quando o chefe do Executivo evita o confronto político no debate de uma moção de censura que tem todo o cabimento e legitimidade, na Assembleia Legislativa da Madeira (órgão fiscalizador do exercício governativo), diz muito sobre a coragem política e o respeito que ele tem pelo funcionamento das instituições democráticas na Madeira. Se não há autonomia financeira, económica e administrativa no governo regional, se há desnorte quando falta dinheiro, se a Assembleia Legislativa está viciada e não funciona, então para quê tê-la? Se não nos respeitam como legítimos mandatários porque teremos de assumir os seus volumosos encargos? Se o programa de governo hoje não é aquele que foi sufragado em Outubro, porque não se demite Jardim como fez em 2007? Porque não tem o conforto da maioria atribuída por sondagem? A meu ver, a solução está na dissolução. Chegou a hora do Presidente da República exercer um pouco do sentido de Estado para além do Cabo de São Vicente. Por mais nevoeiro, vertigens e Adamastores que hajam no Mar da Travessa...