Durante um convívio de animais, um burro disse a um cavalo: - Antigamente, puxavas os carros; agora, ninguém te liga! - Pelo contrário, eu sou animal de prestígio - respondeu o cavalo. - A tua raça é que está em vias de extinção. - Estás enganado! - replica o burro, muito convicto. - Burros, existirão sempre! Burros e cavalos são trabalhadores resistentes e sempre ajudaram o homem, no dia a dia, ao longo da história; além do mais, não exigem salário e são leais ao dono! O imperador romano, Calígula, até atribuiu o título de senador, ao seu cavalo. Dizia ele, que este animal é um excelente político: nunca protesta, não pede favores e é sempre leal. Cálculo da pocilga Vaubam, conselheiro de Luís XIV, viajou pela França, à procura de soluções para a crise da agricultura e da miséria, no final do séc. XVII. Nas suas viagens, pelo campo, verificou que as famílias que criavam porcos, passavam menos fome; constatou, também, que os porcos reproduzem-se facilmente e a sua alimentação não era difícil, principalmente nos campos, porque comem de tudo. Vaubam, fez um estudo a que chamou "A estimativa de cálculo da pocilga". Neste, concluiu: se cada família criar um ou dois porcos, assegurando a reprodução, constitui uma grande fonte de alimentos e contribui para a autonomia dos agricultores. O incentivo à criação de porcos foi uma medida simples e eficaz, para ajudar a combater a crise e a fome, em França. Vantagem de ser porco Entre as várias atrocidades de Herodes, diz-se que este rei ordenou o assassínio de três filhos, devido a conflitos políticos. Por outro lado, Herodes não comia carne de porco, por preceito religioso. Por esse motivo, o imperador romano Augusto comentava: "de Herodes, é melhor ser porco do que ser filho!" Guerra do Porco No início do séc. XX, a Áustria proibiu a importação de carne de porco, da Sérvia, retaliando as dificuldades aduaneiras criadas por este país. O comércio de porco era tão importante, que quase pegaram em armas, por causa deste conflito, o qual ficou conhecido como a Guerra do Porco, entre 1905 e 1907. A rivalidade entre estes dois países continuou e acentuou-se, até que foi assassinado o arquiduque Francisco Fernando, em 28 de junho de 1914, herdeiro do império Austro-Húngaro. Este facto acabou por desencadear, no mês seguinte, a Primeira Grande Guerra Mundial. Tradição do porco Os nossos antepassados, na Madeira, utilizavam a carne de porco, como um dos principais alimentos: carne fresca, salgada ou congelada; dobrada, com as entranhas - tudo se aproveita; faziam-se, também, enchidos; carne vinho e alhos; a banha era, também, utilizada nas comidas, substituindo o óleo, azeite e, até, utilizada como manteiga, etc. Atualmente, cada vez mais, optamos pela facilidade de comprar a carne limpa, sem trabalho, mas com mais custos. Numa época de crise económica, não seria boa ideia tornar a incentivar a criação de porcos? E, já agora, porque não, dar, também, mais utilidade aos burros?! Tanto mais, tratando-se de uma espécie que não está em vias de extinção! João Luís Gonçalves, Procurador da República no Tribunal Administrativo e Fiscal de Loulé

João Luís Gonçalves