Anabela Sousa Domingo, dia 27, assisti ao desfile histórico, que gostei muito. Gostei de ver a interacção entre pessoas de várias idades e de assistir a uma aula de História viva. Senti-me ao mesmo tempo envergonhada e emocionada, quando às tantas é lembrada a revolta da farinha, a do leite e o 25 de Abril. Foram tempos muito difíceis. Mesmo com regimes autoritários, não se deixaram acobardar, nem deixaram que o medo os impedisse de mostrarem a sua indignação. Hoje, em pleno século 21, depois dos nossos antepassados terem chorado e comido o pão que o Diabo amassou, depois de terem arriscado as suas vidas, nós estamos a deitar estas conquistas por água abaixo. Estamos a ser manipulados, agora sem a mínima subtileza. É tudo feito às claras e nós fingimos que não é connosco. Olhamos para o lado, quando vemos as nossas praias de calhau, substituídas por tapetes de betão Olhamos para o lado, quando vemos as nossas ribeiras tornadas em sucatas e lixeiras. Olhamos para o lado, quando são construídas infra-estruturas megalómanas, só para alimentar o lobby da construção. Olhamos para o lado, quando vemos estádios de futebol, construídos em cada esquina, com meia dúzia de adeptos a assistirem aos jogos e com zero de retorno financeiro. Fazemos que não é connosco quando existem crianças deficientes que não podem se deslocar à escola, porque as carrinhas da Educação Especial, às vezes estão paradas, por falta de combustível. Fazemos que não é connosco, quando as escolas dos nossos filhos, não têm papel para textos de apoio, não têm papel higiénico, têm os telefones cortados, refeições em risco, professores desmotivados… Baixamos a cabeça, quando passamos nas ruas em pleno Funchal e vemos lojas fechadas, negócios vazios, patrões desesperados, familiares e amigos desempregados. Fechamos os olhos perante um sistema de saúde que permite que falte medicamentos a doentes oncológicos, que tem listas de espera de vários anos para cirurgias, que humilha os doentes das urgências e das consultas externas, deixando-os horas à espera, que persegue bons profissionais de saúde e dá bónus a quem só pensa no seu umbigo e assina de cruz, só para aumentar a sua conta bancária. Fechamos os olhos a cenas ridículas que se passam na nossa Assembleia Regional, cenas quiçá apropriadas para uma comédia de baixo nível, mas protagonizadas por pessoas que foram eleitas por nós, para defender os interesses da nossa terra e honrar o nosso povo. Às vezes até achamos graça e comentamos nos cafés, sem percebermos que somos os culpados, somos nós que ano após ano autorizamos essas pessoas a dar espectáculo e a aprovarem leis em benefício próprio. Somos todos nós uns maus patrões, porque estamos a pagar-lhes para ridicularizarem o bom nome dos madeirenses. Tornamo-nos surdos ao palavreado grosseiro, aos risos cínicos. Habituamo-nos com os topos Gama, os iates, as mansões, as viagens, comprados à custa dos nossos silêncios. Queremos e temos de apoiar bons deputados, não interessa o partido, não interessa se é da direita, do centro ou da esquerda, interessa que sejam competentes, justos e que honrem quem os paga – OS MADEIRENSES. Na ânsia de termos casa própria, assinamos contractos de empréstimos habitação com spreads altos. A grande maioria de nós tem um crédito para 20 anos ou mais, com seguros e outros produtos financeiros que de nada nos servem, a não ser para nos esvaziar ainda mais os bolsos, impingidos para baixar 0,0001% desse spread. Ninguém pensou que um dia podia ficar sem trabalho, ou que um dia, os ordenados poderiam não estar na conta no dia certo. Ninguém se lembrou e os bancos fazem de tudo para nos manter esquecidos, até o dia em que falhamos uma prestação. Quem de nós não recebe chamadas de Instituições de Crédito com a cassete e insistência do costume, para aceitarmos crédito em cima de crédito. Quem de nós não se sentiu tentado? Os bancos têm objectivos a cumprir, não importa que seja a vender e comprar a alma de cada um de nós. Agora tudo é pretexto para o banco mudar as regras do jogo e tornar-nos praticamente seus reféns. Somos um povo habituado a travar lutas, às vezes a nossa paciência mistura-se com acomodação, mas paciência tem limites e como escreveu Fernando Pessoa no Livro do Desassossego “ Há um cansaço da inteligência abstracta, e é o mais horroroso dos cansaços. Não pesa como o cansaço do corpo, nem inquieta como o cansaço do conhecimento e da emoção. É um peso da consciência do mundo, um não poder respirar da alma”.