Susana Gomes Enquanto os grandes ladrões desta terra continuam à solta brincando ao Carnaval e à Festa da Flor, numa impunidade que a todos e aos próprios deveria envergonhar, andam os senhores da autoridade atrás de presas mais fáceis e, provavelmente, muito mais merecedoras do castigo terreno e divino. Como gatos que descobriram uma ninhada de ratinhos e expectantes aguardam que os mesmos saiam um a um da toca, lambem os bigodes à espera dos meninos da poncha, cegando-os com as suas lanternas, de balão em punho. Preocupação com a condução sob o efeito do álcool? Certamente! No entanto, a frequência nos últimos tempos aumentou abismalmente e fim-de-semana já não é fim-de-semana se não encontrarmos duas ou três operações stop. Qualquer dia já conhecemos os senhores agentes pelo nome, o que aproxima realmente as forças policiais da população. Mais fofinho ainda, acho as multas por excesso de velocidade dentro das localidades (mesmo que não haja uma única casa à vista), sendo o ideal conduzir mais devagar que um carro da funerária. Livrai-nos nós de atingir os 60 quilómetros/hora, porque lá estão eles com a maquineta do Multibanco mesmo à mão, numa versão moderna de crime e castigo que faria Dostoievski dar voltas na campa. Pagar as multas ou pagar o seguro do carro e as revisões? Escolhas, escolhas... é que certamente para o comum mortal não sobra dinheiro para ambas, por mais que se poupe acordando às 4 da manhã para ir disputar à chapada os chicharros a cinquenta por cento na peixaria do supermercado. Talvez seja um modo de tornar os condutores mais responsáveis o que é sempre de louvar mas, falando por mim, ultimamente ando com menos atenção à estrada, sempre na ansiedade de subitamente ver surgir o longo braço da Lei. Ainda há dias, ia-me espalhando contra um muro, ao ver uma sombra esquiva numa fazenda, mas era apenas um cortador de banana que decidiu vestir-se de azul. Isto tornou-se uma espécie de "Onde está o Wally?" mas na versão para totós porque é muito fácil, eles estão em todo o lado, à espera dos mais incautos. Segurança sim, responsabilidade sim, mas com o peso e a medida necessários para que continuemos a respeitar, honrar e admirar aqueles que acima de tudo nos deveriam proteger.