A escalada de medidas que está a matar o estado social intensifica-se. Os patéticos argumentos com que a justificam, sempre apontando um inimigo externo, não conseguem esconder a, clara e simples, verdade: o Governo não sabe para onde vai. Não tem um único pensamento, uma única ideia do caminho a seguir e remete para os outros, os que estão a ser espremido e espoliados, a solução dos problemas pelos quais são os únicos responsáveis. Os alunos do 1º ciclo, infantários e creches vão ficar sem refeições a partir de Junho por falta de pagamento aos fornecedores? Então, avisem-se os pais e eles que tratem do assunto. Avisem-se todos os pais, incluindo aqueles que ficaram desempregados, os que estão com imensas dificuldades em manter a habitação familiar, os que já nem recursos têm. Esses, que lutam desesperadamente para provir diariamente, pelo menos, uma refeição aos seus filhos. E, ainda, os outros, aqueles cujos filhos, a única refeição quente que ingeriam por dia era a que a escola lhes fornecia. O hospital está em ruptura de stocks de medicamentos essenciais para travar ou minimizar o sofrimento das pessoas? Pois que esperem. Ponham a doença em stand by. Não há problema, os medicamentos têm um prazo alargado que vão permitindo resistir (sobreviver) à interrupção dos tratamentos. Vão ser introduzidas taxas moderadoras nas urgências hospitalares? Então, deixem de ir às urgências por tudo e por nada ou optem pela medicina privada, se puderem. Aumenta, escandalosamente, os números do desemprego? Pois haja criatividade. Aqueles que neste momento foram despedidos e que não têm meios de assegurar o nível de vida, nem os compromissos assumidos, os que se encontram à beira do desespero, vejam nesta situação uma janela de oportunidades. Que oportunidades pode vislumbrar uma família que de repente se viu sem nada? Mais do que um estado de caos social, estamos em 'guerra'. Uma 'guerra em que vale tudo: o desemprego, a fome, a injustiça, a falta de ética. Falta até a vergonha aos nossos governantes. Esses sim, cheios de criatividade sobre a forma como vão descartar mais e mais profissionais, públicos e privados, sobre a capa de reequilíbrio das contas públicas. È só estar atento à dispensa de enfermeiros e professores. Estes últimos ao abrigo de não sei quantas reorganizações e revisões curriculares. A criatividade de quem nos governa, não só não vai curar a doença como, dificilmente, sobreviverá à cura. Numa Região onde falta tudo, sobra angústia e desesperança. Foi-nos inculcada a ideia que 'somos um povo de brandos costumes'. Enraizamos o conceito. Porém, está mais que na hora de despirmos pele que tudo aceita, com resignação, para vestirmos a pele da indignação. É tempo de dizer basta a todas as medidas que, paulatinamente, nos vão sendo impostas, que nos asfixiam e que só agravam a pobreza e a exclusão social. Está mais que na hora de dizer basta à falta de ética, à falta de justiça, à falta de verdade. Está na hora da indignação! * Este texto, como todos os assinados por mim, não respeita o Acordo Ortográfico de 1990, vulgo Novo Acordo Ortográfico.

Marília Azevêdo