Nunca se falou tanto do CINM como agora. Será grito de desespero? Será reflexo do sufoco financeiro? Será oportunismo político? Será consequência de um despertar colectivo para o mais importante instrumento desenvolvimento da Região? Será efeito da iniciativa ‘Todos pelo Centro, Todos pela Madeira’, apresentada a 11 de Abril e promovida pela Associação dos Profissionais do Centro Internacional de Negócios da Madeira e pelo DIÁRIO?
Quem souber que responda. Mas é determinante que muitos falem de uma causa que devia ser nacional e que agitem a bandeira até agora guardada no armário. E que até o distraído e incoerente PSD-M vá exibindo as suas cambalhotas em torno da praça madeirense, como provam as dissertações social-democratas sobre a “utilidade e a eficácia de encenações mediáticas organizadas localmente”. Ora é localmente que tudo ganha nova dimensão.
Armando-se em partido discreto nas questões elementares, mas sempre pronto a dar lições nas abordagens a dossiers decisivos que não teve a ousadia de liderar, o PSD-M surge agora empenhadíssimo em recuperar tempo perdido. Nunca é tarde e louva-se a emenda. Para a luta foi convidado o ex-ministro socialista Luís Amado, agora também presidente do BANIF e administrador da SDM, um dos principais oradores do debate sobre o CINM, que o partido promove(u) hoje, nas instalações da Fundação Social-Democrata. Uma iniciativa normal e salutar se não houvesse um histórico envolvendo precisamente quem a apresentou, o deputado Pedro Coelho.
O parlamentar em causa até já diz “que a defesa do CINM é um projecto apartidário e deve ser alargado a todos os sectores económicos, sociais e até aos diferentes quadrantes da vida política portuguesa”. Mudou de opinião e depressa. A 21 de Maio de 2012, o mesmo parlamentar escrevia no ‘JM’ que o “Diário de Notícias do Funchal, sabe-se lá com que interesses comerciais e que benefícios quer aproveitar” havia suscitado o debate sobre a importância do CINM, lançando “uma campanha mediática”, que no seu entender “não passa de uma campanha para enganar o Povo em geral e, em particular, os profissionais que labutam diariamente nesta praça”. Nesse quadro questionou o debate plural em “mesas redondas”, tipificando-as como sendo uma “convergência na acção dos partidos da oposição”, iniciativa que censurou por alegada politização de “uma matéria que deveria ser apartidária”. Pedro Coelho, que por sinal, sabe-se lá com que interesses, marcou presença na sessão de lançamento do projecto do DIÁRIO e APCINM, até já criticou a colocação de muppies no Funchal, pois considera que os madeirenses “já perceberam há muito que o CINM cria riqueza e emprego qualificado e sabem que o actual impasse que se vive em torno do futuro do CINM não são da nossa responsabilidade, porque as negociações são estabelecidas entre o Estado Português, leia-se Governo da República, e a União Europeia”. Qual visionário, entende que esses muppies deviam ser deslocados em locais onde está ou já esteve o poder de decidir sobre o seu futuro. Ou seja, para Pedro Coelho só o PSD tem autoridade para debater apartidariamente o CINM, aqui, nesta Madeira “Inteligente” e agora, quando alguns dão a causa como perdida. Na sua grelha, todos os outros politizam o tema e, pior, enganam o povo e os profissionais. Estonteante esta sua noção de “projecto alargado” e de empenho apartidário.
Outro social-democrata com teses bem definidas em relação à defesa do CINM é Luís Filipe Malheiro. Não se conhecem todos os contornos da briga que armou o ano passado com a SDM, mas importa lembrar que a entidade liderada por Francisco Costa exerceu um esclarecimento contundente, a propósito de uma opinião deste dirigente do PSD, para referir que “o futuro da Madeira impõe o tratamento sério e responsável destas questões e não o atropelo diário da verdade e a produção de lugares comuns, gerados por razões do foro pessoal ou ideológico, ou ainda resultantes de insuficiente ou deficiente conhecimento de causa". Não satisfeito com o reparo público, perde-se em confissões no jornal da diocese. É outro dos articulistas do regime que repete vezes sem conta que questão do CINM “não tem nada a ver com a Madeira nem com aquilo que os madeirenses pensam da Zona Franca – independentemente das reservas, das dúvidas e das opiniões obviamente divergentes que legitimamente existem – mas sim com Lisboa e com Bruxelas, cidades que albergam os centros de decisão (e de negociação) em torno desta matéria”. É por isso que insiste na ideia, logo se vê peregrina, “que muitas iniciativas promovidas localmente, de pouco ou nada servem em termos concretos da defesa e da preservação do CINM e da sua atractividade” e que estas não “têm qualquer impacto e eficácia”. Se é sobretudo fora da Região que importa apostar, para que serve então o debate de hoje? Visa encenar o quê?
O PSD-M é imprevisível na relação com o CINM. Agora opta pela vitimização, sobretudo através do seu líder que na semana passada desabafou: “Quanto ao Centro Internacional de Negócios não vemos o entusiasmo e a pressão imprescindível de Lisboa nesta matéria tão decisiva para a Madeira e criminosamente tratada pelo Governo Socialista”. E o que fez Jardim nesta matéria tão decisiva? Recuem a 30 de Maio de 2010 e perceberão quem é que se contentou com promessas e, num encontro imediato com José Sócrates no aeroporto da Madeira, não só deu como adquirido que ninguém ia fechar a zona franca, como concordou com os prazos nas negociações com Bruxelas.
O PSD-M brinca com quem não tem memória. Mas talvez devesse dar-se ao respeito. Ou então assumir que não interioriza minimamente o que ouve. No conselho regional de 3 de Março deste ano, o histórico Miguel de Sousa foi claro: “A Zona Franca, em verdade o Centro Internacional de Negócios da Madeira é a única mina verdadeiramente por explorar. Para tal, precisamos de mais autonomia, nomeadamente fiscal, outro estatuto europeu, até outra mentalidade interna”. Qual mentalidade?! Miguel de Sousa não falou na saída da União Europeia como alguém insinuou por estes dias. Também não resumiu a luta pela “mina” à esfera social-democrata, como Pedro Coelho pretende. E não abordou a questão com fundamentalismos doentios, como denotam os escritos dos que nada dizem. Não admira que já nessa intervenção polémica, tivesse confessado estar “desiludido com os madeirenses”, com o povo que não sabe “se está convencido do interesse da democracia, da necessidade da autonomia, das virtudes do desenvolvimento” e com o povo acomodado. “A Madeira está a ser permanentemente agredida e não nos revoltamos”, gritou na altura. Se Miguel de Sousa olhar para os seus pares tem a explicação para o alheamento comprometedor. E até é capaz de concluir que não é agredindo quem se revolta, em nome da Madeira, que o PSD-M defende o CINM.